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A rede social (com spoilers)

Poucos segundos são necessários  – e numa simples conversa, quase informal, já percebemos que estamos diante de um personagem típico da geração que cresceu em meio a laptops e internet banda larga. Mark Zuckerberg não é apenas o fundador do Facebook, o mais famoso site de redes sociais já inventado, mas também um sujeito veloz, inteligente, um hacker extremamente bem informado, seguro, prepotente, solitário e que crê, piamente, entre as teclas e a tela do seu computador – e imerso em algoritmos de programação – acredita sim ter o mundo `as suas mãos. Vê-se um personagem com traços vivos que pulsa, autônomo. A rápida conversa encontra-se logo na sequência de abertura do filme. Nela, toda a arrogância de Zuckerberg reverte-se contra ele mesmo, já que Erica Albright, sua namorada de então, resolve dispensá-lo.

A sacada do filme, do roteiro `a montagem, está em imprimir um ritmo narrativo entrelaçado por hiperlinks. De um comentário vamos a outro, como se perambulássemos entre nuvens de tags. Para cada personagem abre-se uma janela, que retorna, e tece conversas paralelas com as outras demais que estão – simultâneas, sempre – sempre abertas e interconectadas. Como se entretido num chat coletivo, o filme narra com a mesma inquietação que habita a mente de Zuckerberg. Ainda que a estrutura clássica do flashback-forward, iniciada com Kane do Welles, seja a tônica preponderante desse filme, entramos por sua rede narrativa como se navegássemos em diversos sites, blogs e páginas de amigos no próprio facebook. Este ritmo seduz. E se num primeiro momento soa clássico demais, com linguagem e enquadramentos que lembram seriados de Tv, percebe-se, num olhar mais atento, esse estilo de hiperlink e montagem ligado a um substantivo, ainda vago e indefinido, que talvez traduza a ética e a estética que o cosmo dos píxels anda a nos conotar.

Com sutileza, o roteiro prima por um equilíbrio e um resguardo ético dos personagens. Aposta-se, dramaticamente, num julgamento em aberto. Sem maniqueísmos. Numa das melhores cenas de julgamento do filme, o advogado pergunta algo e Zuckerberg, subitamente, muda de assunto. Divaga. Olha pela janela. O advogado insiste e indaga se poderia ter um pouco da atenção – ou melhor, se mereceria a atenção do pretenso criador do facebook. O réu, um guri imberbe com cerca de vinte anos, responde da maneira mais agressiva possível: diz que toda a sua energia e atenção está no facebook e como encontra-se sob juramento deve ser sincero. Responde, portanto, ao advogado de acusação: sim, ele mereceria o mínimo necessário da sua atenção. Nada além disso.

Compreende-se (e também acredita-se) nas motivações que levaram Zuckerberg `as suas possíveis traições. Se utilizou meios espúrios – e eis o julgamento aberto – eles, talvez, justificariam os fins nobres. Zuckerberg é retratado como um personagem completo nas suas contradições. É irônico que um sujeito solitário e egoísta seja o criador de uma rede social que conecte milhões. É revelador que se afaste dos seus amigos, ele, exatamente quem criou uma rede cuja maior habilidade é convidar e “fazer” amigos – onde encontra-se outra forma de convívio.

Por outro lado, se os demais personagens foram traídos, como o filme sugere, eles não demonstram o mesmo esforço, a paixão e dedicação que pulsou em Zuckerberg para confeccionar o tal facebook. Com os garotos de Harvard retrata-se um mundo eivado pela vaidade e os vícios de uma elite que habita as universidades americanas. São os vícios dos clubes, dos eleitos para governar os Estados Unidos, ou para iniciar fortunas, os sujeitos entusiasmados com rituais de iniciação que beiram um proto-fascismo infantil. Esta elite é excludente – e competitiva.  `A competição pura, âncora do liberalismo americano, acrescentemos os temperos da inveja, egoísmo e do oportunismo. São estas emoções que pulsam entre os demais personagens que reivindicam os milhões de dólares depois que o facebook – levado a cabo por um jovem outsider – alcança um sucesso estrondoso.

O melhor do argumento do filme está na maneira como compreende a internet e a sua fulminante revolução cultural. Eles conseguem traduzir uma ideologia consistente no comportamento de Zuckerberg e nos seus diálogos com Sean Parker, que foi o inventor do Napster. Ambos percebem que as redes sociais inauguram uma nova forma de circulação e compartilhamento de conteúdos, ou uma interação simbólica entre os indivíduos. Não adianta classifica-la com os mesmos mecanismos econômicos, como a propaganda para a TV, ou as categorias jurídicas vigentes, como a propriedade intelectual e o copyright. Nem mesmo o mote de ultraexposição ou perda da privacidade parece certeiro. Zuckerberge e Parker percebem que estão a criar uma nova esfera pública, bem diferente daquela que diagnosticou Jügen Habermas. Nunca souberam ao certo o que alcançariam, mas é nesse sentido que acreditam-se profetas de uma era em construção.

Os comportamentos de Zuckerberg e dos demais personagens são contraditórios frente a essas características pioneiras da internet. As maiores invenções na rede – e na tecnologia digital – são fruto de um trabalho coletivo e colaborativo. Vê-se dezenas e centenas de hackers ou programadores realizando softwares e plataformas de interação social. São bem conhecidos os exemplos das criações de softwares nos filmes de animação de Hollywood, alguns deles ocorrem on line com colaboração simultânea de experts anônimos de todo o planeta. Por que, portanto, reivindicar-se a autoria? Por que exigir um modelo de direito autoral ou de copyright para produções calcadas no anonimato e no trabalho coletivo? Por que concentrar o lucro num modelo clássico de empresa com um “criador” e um presidente? Em tempos de internet, creio, devemos renovar nossas noções de criação individual, colaboração coletiva e, sobretudo, de propriedade.

Quem entrou na onda narrativa de Rede Social certamente vai gostar dos trabalhos anteriores de David Fincher. Recomendo fortemente o filme Zodiac. É um dos melhores thrillers e suspenses que vi nos últimos anos. Gosto mais desses filme do que O curioso caso de Benjamin Butler. De qualquer forma, Fincher confirma-se como um narrador poderoso que sabe manejar com maestria os artifícios do cinema clássico.

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