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Rohmer, adjetivo

Este artigo foi publicado no Correio Braziliense no dia 16 de janeiro de 2010.

O ano é 1960. A cidade, Paris. Os equipamentos: uma levíssima câmera de 16mm e um aparelho nagra carregado a tira-colo para captar o som direto. Sem um roteiro prévio, o cineasta Jean Rouch e o sociólogo Edgard Morin abordam os transeuntes do veraneio parisiense. Eles simplesmente perguntam: você é feliz?

Hoje, cinqüenta anos após o filme e em tempos de reality shows, essa pergunta e esse método soam como clichês desbotados. No entanto, aquele estilo inaugurou um rumo ético e estético para toda uma geração de cineastas, intelectuais, críticos e jovens artistas. O filme Crônica de um verão, esse mesmo dirigido por Rouch e Morin, provocava uma relação do cinema com a abordagem direta e a busca pela “verdade”, longe dos artifícios dos estúdios. Nascia a nouvelle vague e os documentários incitavam os cineastas `as ruas. Foi com esse ímpeto de tecer uma relação entre rua, cinema, museus e literatura que Truffaut, Godard, Rivette, Rohmer, Chabrol, Resnais e Chris Marker abandonaram seus outros talentos e vocações – resolveram dedicar suas vidas a filmar.

Prolífica e inquieta, a geração da nouvelle vague nasceu escrevendo critica de cinema na já lendária Cahiers du Cinema. Eram todos discípulos de André Bazin, um critico fundamental por chamar a atenção aos filmes “B” norte-americanos e ao neo-realismo italiano. Os jovens da nouvelle vague também eram freqüentadores assíduos da cinemateca francesa, uma das primeiras do mundo, organizada por Henri Langlois. Talvez por isso essa importante geração foi responsável pela consolidação do cânone que até hoje guia a interpretação da história do cinema, no qual o diretor é reconhecido como o principal autor dos filmes. Essa geração, portanto, buscava a vanguarda por meio de um profunda e sistemática revisão da história do cinema. Reviam para apontar caminhos futuros. E da teoria foram `a práxis. Tornaram-se cineastas. Experimentaram, sempre. Foram ao vídeo, a tv, aos museus. O cinema traduzia-se em entrega e intensidade.

Nunca se falou tanto em cinema. Era assunto e polêmica. Seja nas ruas, nos bares ou nas festas. Crônica de um verão aproveita esse mote e mescla-o com o paradigma da psicanálise. Por isso, seus personagens tanto falam. Eles confessam, escondem pequenas verdades, revelam pequenas mentiras e jogam com a moralidade. Não por acaso, Rouch percebe nesse jogo que uma mentira pode ser tão verdadeira como qualquer outra confissão tida como sincera.

Assim, num caminho similar, seguiu Eric Rohmer a sua trilha estética. Focando, sobretudo, na moralidade que cercava seus personagens: as pequenas mentiras, as pequenas revelações,  as mínimas traições. São esses os focos dos seus provérbios, as suas comédias, suas investigações sobre o estado da alma dos seus personagens no inverno, no verão, no outono ou na primavera. Rohmer talvez tenha sido o principal tradutor de um estilo literário francês `as telas. Não buscou a “jornada do herói”, paradigma que tanto influenciou o cinema clássico; nem o anti-herói da literatura moderna; mas indivíduos simples, pacatos, cotidianos, com desafios e obstáculos que revelam sutilezas comuns a todos. O cinema de Rohmer enfatizou a descrição dos hábitos e das perversões. Concentrou sua atenção `as falas e aos diálogos intermináveis, descrevendo grandes discussões filosóficas, existenciais, ou mesmo prosaicas e triviais. Um microcosmo no qual o cinema revestia-se numa prosa para o mundo.

A morte de Eric Rohmer evidencia a necessidade das novas gerações de cineastas, artistas, críticos e cinéfilos lidarem melhor com essa rica tradição artística que foi a nouvelle vague. Um movimento estético que mesclou estudo e sistematização com ousadia, anarquia e paixão. Hoje – em que o paradigma do cinema clássico predomina, mesmo que imbuído de cinismo, oportunismo e otimismo tecnológico – hoje, mais do que em qualquer outra época, devemos redescobrir por dentro do cinema o específico da linguagem cinematográfica. Para reinventá-la. Para revigora-la. Para, inclusive, superar a belíssima herança deixada pela nouvelle vague.

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