Arquivo da tag: Mozart

Biutiful, de Alejandro Iñarritu

O Réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart é uma composição enigmática. Ao receber uma inusitada encomenda para criar a trilha de um ritual fúnebre, o músico austríaco, que encontrava-se perto de morrer, acreditou que aquela era uma mensagem do destino: ele deveria compor a missa do seu próprio velório. Realmente, o Réquiem consolidou-se como sua última obra e representou o ápice de um gênio.

Réquiem significa despedida. O adeus entrelaçado `a morte, uma última evocação da vida e dos vivos. O tom ético e estético de um Réquiem também é predominante em Biutiful, filme do diretor mexicano Alejandro Iñarritu. Mas ao contrário de um personagem genial e extraordinário como Mozart, vemos a discreta despedida de Uxbal (Javier Bardem). Bem desenhado (e bem interpretado), esse protagonista nos toca com sentimentos discretos e complexos, com gestos que oscilam entre o altruísmo, a exploração do outro e momentos em que o cuidado de si simplesmente urge.

Uxbal não tem obra nenhuma a legar. É um indivíduo comum, um personagem quase-oco. Um personagem-morte, que ainda não morreu. Curioso: o melhor do seu retrato está na sua íntima relação com os mortos. Uxbal possui certo dom mediúnico e é constantemente chamado para participar de velórios. Ele ajuda os mortos a partirem. Sobretudo aqueles não conformados com o desaparecimento físico. E ganha grana com este ofício o que forma um contraponto com as intuições metafísicas que rondam o filme. Um contraponto católico, barroco.

Junto com Uxbal, descobrimos que ele está com um câncer fulminante. Tem apenas mais dois meses de vida. No susto, ele reage como os mortos que conversa: não aceita o fato. Luta em vão contra sua finitude. Pouco a  pouco, ele reveste-se de silêncio, de atos menores, quase minúsculos, e, discretamente, passa a tecer a sua despedida.

Biutiful foca em pequenas traições e em brevíssimos momentos de solidariedade que une a vida de Uxbal a africanos, chineses, policiais corruptos e parentes – seu microcosmos. Aposta-se nas mútuas (des)confianças que perambulam esse submundo. Mesmo cambaleante, Uxbal tenta se equilibrar entre essas pulsões antagônicas. Sem escolhas, sozinho e isolado, extremamente melindrado com sua ex-mulher e com seu irmão – Uxbal acaba por acreditar na bondade dos desconhecidos.

De forte apelo melodramático, Biutiful é um filme que se perde por prender-se mais numa idéia do que na sua progressão narrativa. Mesmo sendo uma despedida, mesmo como um réquiem, ele não ultrapassa dramaticamente a sua proposta inicial. Não evolui. Torna-se monocórdio. Como uma harmonia que repete seu tema incessantemente e rodopia em torno de si, num círculo vicioso.

Sim, Guillermo Arriaga fez falta. O roteirista de Babel, 21 gramas e Amores Perros, teria instilado uma outra qualidade dramática a este bom argumento e ao anti-herói de Biutiful. Fortemente influenciado por William Faulkner, Arriaga sabe criar narrativas fluidas, concisas e de um apelo dramático que oscilam entre o trágico, a fábula e o dramático. Não é pouco. Havia uma boa química, uma profícua parceria, entre esse escritor e o diretor mexicano. Biutiful é a prova concreta que esta química dissipou-se… .

Iñarritu é um cineasta de muita desenvoltura para a narrativa visual. Dinâmico, com enquadramentos surpreendentes e ligeiros, ele conta uma história com poucas imagens. Montado com talento, seu curta é o melhor na série sobre o onze de setembro. A narrativa visual sobrepõe-se `a dramática. Ao contrario da poluição de imagens e de histórias que caracterizam o 9.11, Iñarritu nos deixa a tela preta e o som de telefonemas das vitimas. Nada mais. Abstém-se de frases dramáticas, ao menos no sentido clássico. Certas vezes, uma simples imagem (ou mesmo sua simples ausência) vale mais que qualquer discurso. Deixo o link aqui:

3 Comentários

Arquivado em Filmes atuais, Hollywood, Literatura, Oscar