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Leviathan e outras críticas na revista cinética

Camile

Leitores, se os tenho, fica um aviso. Desde dezembro  tenho colaborado com a revista cinética, de quem sempre fui um leitor assíduo. Se compartilho isso aqui, nesse amontoado da minha produção mais pessoal e recente, não é por acaso. Muito da minha intenção  – e da dedicação do meu tempo – para escrever crítica “de cinema” foi, pouco a pouco,  migrando para esse projeto coletivo. E é prazeroso reverberar num debate que te ultrapassa, que coliga suas inquietações junto a uma teia de afinidades eletivas. Sim, eu sei, já se foi algum tempo e eu poderia ter comentado essa notícia um pouco antes. Mas se tiverem curiosidade podem ler um pouco da minha escrita mais contemporânea, como uma crítica que escrevi sobre  Amor do Michael Haneke, a cobertura que fiz da Berlinale , com resenhas de filmes como Camile Claudel, 1915 de Bruno Dumont, The Grandmaster Wong Kar-Wai, Promised Land de Gus van Sant, Harmony Lessons do jovem cineasta Emir Baigazin, Nobody’s Daughter Haewon de Hong Sang-soo entre outros. Também publiquei na Cinética um ensaio que sintetiza muitas das minhas ideias mais recentes, que foi fruto da pauta coletiva sobre Dispositivo e chama-se  Dramaturgia da dúvida. Nessa última edição, de julho, contribuo com um ensaio sobre o filme Leviathan de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, obra ímpar que me impactou de forma intensa e que logo deve entrar em cartaz no Brasil. O “trailer” está nesse link: https://vimeo.com/45252172  e fica a dica de verem essa obra. Será um prazer, enfim, comentar por aqui qualquer um desses filmes/textos, ampliando, quem sabe, nossas inquietações cinéfilas.

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Arquivado em Berlim sem fim, Cinefilia, Cinema contemporâneo

Hereafter, de Clint Eastwood

Ok, você pode não acreditar. Ou ter a mínima paciência para este papo místico, religioso, metafísico. Fique `a vontade: hoje ninguém vai te encher a paciência e perguntar, indignado, qual os ortodoxos ansiosos que te abordam na rua, “como assim, nada depois da vida?” Seu silêncio será bem-vindo. No mínimo, não soará esquisito.

A tela preta. E nada mais.

Esse foi o recado de Pier Paolo Pasolini no seu filme mais religioso. A tela preta: para este mundo racional, cheio de regras e protocolos. Sem graça. Uma tarja, já que eivamos rumo a este consumismo desenfreado, costurado por um tal pós-tudo.

Pós-romântico, pós-utópico, pós-9.11, pós-crise de 2008, e cá estamos – “Hereafter” – vendo o novo filme de Clint Eastwood. Creia, se quiser, é claro, o filme retrata mais este mundo de aquém-túmulo do que outro qualquer, qual seja ele, caso haja ou não. Eastwood tece seu melodrama focado em mostrar a superficialidade e a falta de emoções sinceras que habitam nosso rol de relações. Seja na família, no trabalho, entre os pares amorosos ou com os nossos mortos, guarda-se uma resignação e um silêncio. Uma ausência. Um hiato. Uma espécie de vazio entre dois gestos comedidos, tímidos, quase-gestos. É, novamente, o tema da incomunicabilidade que Eastwood desperta. De um jeito distinto, mais clássico, talvez, da forma que diretores como Antonioni, Tsai Ming Liang ou Michael Haneke retratam esse tema. Neste argumento, pouco importa se esta conexão e comunicação é física ou metafísica. Para Eastwood ela esfacelou-se. Ocorre raras vezes. E ponto.

Com a sua costumeira sutileza, Eastwood esboça uma crítica ao racionalismo exacerbado e ao materialismo, fatos que inoculam a cultura ocidental contemporânea. Este chão cultural – encha o peito e diga: esta “civilização” – não se prepararia para compreender acontecimentos aleatórios, caóticos, e inexplicáveis. Por isso a Tsunami, os atentados terroristas e as ondas de demissões, que se infiltram entre as três histórias, possuem tanto significado dramático. Mais do que trágicos, eles traduzem a fraqueza da “condição humana”.

Neste sentido, Eastwood se aproxima de uma espécie de teologia materialista, que é o conceito de Zizek para interpretar Kieslowski, o famoso diretor polonês da trilogia das cores e da série “Decálogo”. Aliás, há vários ecos de Kieslowski em “Hereafter”. Como na história dos gêmeos de Londres, que lembram as duas personagens metafisicamente siamesas de “A dupla vida de Veronique”, ou as propagandas e o desastre da apresentadora francesa, que logo remetem a Vermelho (Rouge) da triologia das cores. Eastwood e Kieslowski partem deste retrato materialista para olhar de perto, prenhes de emoção, os dilemas éticos que o acaso nos impõe. Eles estão mais preocupados nos gestos mínimos, cotidianos e banais do que nas grandes questões metafísicas, místicas ou teológicas. Estão atentos aos afetos  e gestos delicados que podem emergir de maneira fugaz e intensa – num simples encontro de olhares de dois personagens. Ou num mero toque, quase epifânico, que revele algo intenso, simples e sincero. Como, eticamente, a vida poderia e deveria ser.

A aposta no acaso. Nos encontros fortuitos. Que ocorrem, sim, mas que estavam fora do programa. Longe do ritmo e das regras oficiais. Longe do trabalho, da família, do estado. Em “Hereafter”, os poucos momentos em que uma comunicação realmente ocorre, ela materializa-se assim: também caótica e inexplicável. Simplesmente acontece.

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