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As cintilações de Pedro Costa

Pedro Costa é um artista único na atual cena cinematográfica. Na contramão de uma profissionalização do cinema dito de arte, ele vem optando por criar uma obra `a margem, calcada em valores estéticos bem definidos e num forte afã de resistência.  Há, na sua postura, nas suas escolhas, uma politização um pouco punk – no melhor sentido desse movimento, é claro – uma politização radical, urgente, necessária. Uma decisão ética em não ceder, de maneira alguma, aos formatos ou valores comerciais. Para Costa, uma arte que une imagem e som não pode ter a ilusão ou o engano ao espectador como seu ponto de partida. Há, por isso, nos seus últimos filmes, uma escolha política pela câmera parada: a imagem força o espectador a encontrar o sentido. Há um gesto insistente em trazer as pessoas e os atores-personagens do seu cosmos para dentro do processo criativo. Sabemos que essa preocupação tornou-se comum no cinema contemporâneo, sobretudo no documentário. No entanto, Costa o faz sem se alienar da sua autoria artística. Pelo contrário.

Quando vejo No quarto de Vanda e tantos homens e mulheres picando-se para a câmera sinto-me defronte de um cinema raro, hiperrealista e poético, algo que também emerge em filmes de Jia Zhang-Kee e Hou Hsiao-Hsien. Uma estética que está anos luz da desbotada discussão sobre ficção e documentário e que volta-se para as origens do cinema. Costa nos lembra que a essência da sétima arte estava lá nos Irmãos Lumiére quando eles simplesmente mostravam os operários saindo da fábrica. Era apenas uma câmera com pessoas em movimento, com pessoas paradas. E o tempo a passar. E se há algo autoral neste gesto de mostrar – ele, num paradoxo, também anula todas as afetações artísticas do autor. Pedro Costa é poeta, hoje, porque tornou-se muitos, muitos outros além dele mesmo.

Desde Ossos, seus filmes localizam-se no bairro pobre de Fontainhas, em Lisboa. Seus filmes mostram não apenas a pulsão desse local, como suas transformações. Em Quarta de Vanda vemos a destruição do bairro. Em Juventude em Marcha ele ressurge higiênico, com cheiro de especulação imobiliária. Mostram-se as mesmas pessoas, os mesmos ‘atores’ dos filmes anteriores. Dentro do bairro, vemos movimentos: as vendas de frutas e verduras, as conversas longas, cotidianas, as pequenas festas, os devaneios, as lembranças. Boa parte dos moradores são imigrantes de Cabo Verde e falam um português um pouco crioulo. Um português gostoso de ouvir. Os pobres são retratados com dignidade cinematográfica. Ventura, o protagonista de Juventude em Marcha, anda pelo bairro de corpo inteiro como se fosse John Wayne. E todos no bairro são seus filhos, como numa narrativa medieval que os personagens se encontram para conversar e contar uma história que não acaba nunca.

Deixo aqui a carta de Ventura para o seu amor que ficou lá em Cabo Verde. Lê-la aqui desperta, certamente, um prazer menor do que ouvi-la durante o filme. Pode-se encontrar um farto material sobre Costa no blog da mostra que acabou de ocorrer nos CCbbs de Brasília, Rio e Sampa: O cinema de Pedro Costa

Nhá crecha, meu amor

O nosso encontro tornou a nossas vida mais bonita pelo menos trinta anos.

Pela minha parte torno mais novo e cheio de força.

Eu gostava de te oferecer cem mil cigarros, uma dúzia de vestidos daquele mais moderno, um automóvel, uma casinha de lava que tu tanto queria.

Um ramalhete de flor, quatro tostões.

Mas antes de qualquer coisa, bebe uma garrafa de vinho do bom

Pense em mim.

Aqui o trabalho nunca para.

Agora somos mais cem.

Anteontem no meu aniversário foi altura de longe pensamento

Para ti.

A carta te levaram chegou bem?

Não teve resposta tua.

Fico espera.

Todos os dias, todos os minutos aprendo palavra nova e bonitas para nós dois.

Mesmo assim nossa medida como um pijama de seda fina, não queres?

Só tu chegar uma carta para nós como sempre vindo das tuas mãos.

Fico a espera.

As vezes tenho medo de construir essa parede em concreto e cimento e tu com teu numa vala tão funda que te empurras para longo esquecimento.

Até dói cá dentro ver estas coisas mais que eu não queria ver.

O teu cabelo tão lindo  cai das tuas mãos como erva secas.

`As vezes perco as forças

e fujo que vão esquecer.

Ventura.

Há várias maneiras, vários ângulos possíveis, vários enquadramentos viáveis e imagináveis que estão lá – prontos para filmar um astro pop, uma cantora e uma atriz cultuada. Quando convidado, um olhar mais viciado faria algo simples: mesclaria entrevistas, depoimentos pessoais, alguns ensaios, momentos de shows e conseguiria, sem precisar de muita desenvoltura, traçar um retrato musical bem tradicional, mas também com chances reais de despertar comoções padronizadas. Este, certamente, é o estilo mais comum que ao longos dos últimos anos consolidou-se como um formato televisivo canônico, impulsionado por toda uma geração eivada pela montagem dinâmica, criativa e hype da MTV.

Um filme como Ne Change Rien, de Pedro Costa, surge mais vibrante e desdenhando os ares rarefeitos desse plano geral. Ao compor, com calma e precisão, um retrato de Jeanne Balibar o diretor português sedimenta uma trilha de observação e um estilo de documentário musical calcado na sutileza e na discrição (que são sentimentos antagônicos frente ao afã pop). Traçada numa luz contrastada, quase barroca, sua Jeanne Balibar surge grandiosa e se confessa entre murmúrios mínimos. Pedro Costa foca na sua busca silenciosa e reflexiva pelo timbre certo, sua obsessão em encontrar o ritmo, a síncope e-  o mais impreciso – sua obsessão e tortura artística para tocar, uma vez mais, a essência sentimental do seu processo criativo.

É com a câmera parada que o cineasta retrata os longos ensaios de Balibar. Ficamos estáticos, sob um preto e branco intimista e uma iluminação preciosa, que privilegia apenas alguns objetos do plano, somente algumas partes do rosto ou do corpo. São movimentos mínimos, discretos, quase imperceptíveis – e a câmera lá permanece, imóvel, persistente em encontrar sua artista. Seu retrato é um fio delicado, que facilmente afrouxa, e enfatiza os movimentos interiores de Balibar. Suas pausas. As dúvidas do seu ouvido de dentro. Suas repetições que, `as vezes,  parecem infinitas, repetitivas, monótonas. É um documentário sobre uma artista trabalhando. No entanto, basta alguns segundos em meio aos mantras dos ensaios que pequenas cintilações emergem. São como certas iluminações profanas, despretensiosas e banais, afinal a arte em processo não possui a moldura sublime da arte acabada e exposta num altar qualquer.

Um documentário ensaio, portanto, que tem alguns ensaios verdadeiros como tema ou mote. Estamos diante dos momentos despretensiosos de uma artista. Momentos menores, diriam alguns. Ou somente instantes fugazes. Estamos diante de Jeanne Balibar. Apenas isso. O lado musical de uma cantora, que se deixa estar em cena, que se deixa para a câmera sem direção alguma, sem diretor a palpitar. Uma cantora que não chega a ser fenomenal, mas, sim, uma artista colossal. O que vemos é uma forma precisa de expressar sentimentos. Sua dança é quase imperceptível, sua mudança de timbres chega a soar esquisita, talvez amadora, mas ela toca, atinge e não precisa de muito para emocionar.

Em alguns momentos, ouvimos de tudo que vemos no estúdio – menos aquilo que os músicos escutam ao fone de ouvido. É a música que escapa. A música-silêncio que tão bem definiu Cage – uma música interior, uma melodia imaginária.

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