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Historias do Cinema de Jean-Luc Godard

As coisas estão aí, por que manipula-las?

(Roberto Rossellini)

Uma história com muitas vozes, feitas a muitas mão, para milhões de olhos. Uma história tecida no ritmo de urgência das grandes produções e das produções urgentes por serem caseiras, necessárias. Das imagens inaugurais; do sal de prata prensado em nitrato, do sal de prata e sua emulsão em acetato vimos, como testemunhas, essa mesma imagem – a 16, 24 ou mesmo 30 frames por segundo, pintada a base de tecnhicolor, ampliada pelo cinerama e pelo cinemascope,  tanto faz – vimos, portanto, essa imagem se desalinhar entre as varreduras eletrônicas, se fixar e se desestabilizar entre as matrizes binárias e formar os pixels do digital que nos é contemporâneo. Visto assim, de supetão, o cinema se resumiria a uma história de tecnologia sobrepostas num palimpsesto cuja primeira imagem remeteria aos primievos fotogramas dos irmãos Lumiére. Não é este o intento de Jean-Luc Godard ao tentar retratar, filmar e escrever com imagens a sua visão do que foi, é, está sendo e será a história do cinema. Godard busca uma visão humanista do cinema. Como se se perguntasse sobre o que o ato de filmar e ver filmes traria de novo na nossa percepção do mundo.

Histoire(s) du cinema, portanto, é um projeto hercúleo que reúne uma galáxia de imagens, cenas, trechos de filmes, momentos cinematográficos e gestos epifânicos. Mais do que uma antologia de cenas marcantes do cinema, Histoires percorre a trajetória extremamente pessoal de Godard frente a sétima arte.  Uma maneira de lidar – íntima e objetiva – com as imagens, as idéias e perguntas que formaram Godard enquanto homem de cinema. Os quatro “episódios” dessa série feita para a Tv francesa foram realizados como uma celebração ao primeiro centenário da história do cinema. Uma celebração com um quê paradoxal.

Não por acaso, Godard fundou uma linguagem híbrida, suja, imperfeita, provisória, na qual procurava por novos rumos `a sua arte. Mesmo entusiasta que é da linguagem cinematográfica, Godard, o cara, mesclou o meio que celebrava com a televisão e o vídeo (o filme foi feito entre 1989 e 1998, o digital, portanto, sequer engatinhava…). Ele preferiu retratar o cinema na encruzilhada em que ele se encontrava ao invés de tecer lamúrias sobre um passado glorioso.

Por isso, Histoires é um filme-ensaio. Parece uma obra de Montaigne com a sua coleção de citações de filósofos gregos e romanos, citações que o conduziam – como musas – `as suas próprias formulações a partir das influências incorporadas, mastigadas, deglutidas.

É o que Godard faz com imagens. Como se estivesse num entre-lugar privilegiado: entre espectador-autor-pensador-cineasta. Uma postura num ponto de equilíbrio entre quem vê, observa e mostra. Entre quem, simultaneamente, pensa e se encanta e afugenta o estranhamento e as vãs dicotomias de emoção versus razão.

O cinema como língua e fala. O cinema como história. Talvez a história com “H” maiúsculo, pois não há nada mais histórico que a imagem cinematográfica. A imagem como imanência do real, como índice, símbolo, vestígio de algo que realmente aconteceu em algum momento remoto. Imagem-tempo movimentado-se para uma imagem-pensamento, uma imagem-eu. Escrever essa história com o seu próprio meio é um ato coerente com tal compreensão da mágica do cinema.

Eis que vermos Godard como escrivão e escritor. Só que escreve sua história entre imagens, sons, letras, frases curtas, citações – com verve poética.

Uma postura ética, na qual busca-se um estado de imersão frente a história e a imagem. Um pensamento que forme uma forma que pense. Uma forma ética que forma as subjetividades contemporâneas. Uma forma de ser-imagem.

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