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Harun Farocki – Parallele

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Galerie Barbara Weiss, Kreuzberg, Berlim. Lá vi três dos últimos vídeos de Harun Farocki . O local, propício. Kreuzberg é um bairro conhecido por arraigar uma pletora de turcos. Às vezes parece mais uma fronteira com a cultura árabe – um portão de Constantinopla – do que um local propriamente germânico. Coisas de cidades porosas, pós-coloniais. Fui com a artista argentina Julia Mensch, Aurélio, seu companheiro e Marcelo, um amigo nosso. Antes, Julia me levou para saborear um Falafell especial – o melhor dos tantos que já comi por aqui. Pronto, tudo parecia no ponto para acompanhar a produção desse cineasta turco-alemão.

Farocki está em alta. Aqui, no Brasil, mundo a fora. Recentemente passou uma semana no Rio e fez um seminário por lá. Tem muito livro, artigo, tese e dissertação sobre ele. Farto material. Há quase um ano, a Absolut Medien lançou uma caixa com cinco Dvds e a maioria dos seus filmes assim disseminou-se em velocidade exponencial, dado o ritmo torrent. Fenômeno igual ao que Jonas Mekas vem recentemente experimentando.

Farocki é um cineasta mais velho, que emergiu junto do movimento do “cinema novo alemão”. Sempre, desde os anos sessenta, esteve um tanto à margem dos agitadores que estiveram próximos ao Manifesto de Oberhausen e da Filmautoren Verlag, que produzia os filmes de Klug, Fassbinder, Schöndorf, Herzog e Wenders.  Seu agito diferia. Em parte por opção, Farocki parou no vídeo e nas instalações para galerias, uma ilha de tranqüilidade – e isolamento – para os documentaristas daquela época e de hoje. Em parte, à margem, por se situar nessa tensa fronteira que é sua condição dos turcos da segunda geração.

No filme Aufstellung, de 2005, isso fica bem claro. Farocki aborda diretamente a propaganda para chamar os Gastarbeiter – o momento, no meio da guerra fria, em que a Alemanha convida estrangeiros para trabalhar no país. Mostra-se, no filme, apenas as propagandas visuais. Sem som. Numa montagem seca e precisa, Farocki nos faz ler os anúncios, a linguagem padronizada para ensinar a língua alemã, as estatísticas, os gráficos, as manchetes de jornal. Nada mais. Essa secura do discurso narrativo deixa uma obra visual que fala por si. Aos poucos, ele revela como a cultura alemã é vidrada por posicionamentos, localizações, pontos precisos no mapa, no discurso, na gramática, nos números. É dessa linguagem gráfica e visual – dessa materialidade – que nasce sua crítica. No decurso dessa linguagem de propaganda e de jornalismo, ele mostra como os trabalhadores convidados proliferaram-se e – agora – precisam ser evitados. Numa montagem dialética refinada ele faz uma comparação com os gráficos, os mapas e as propagandas da Alemanha ainda ressaceada da sua derrota na primeira guerra. Gráficos que comparam o crescimento de imigrantes – e judeus – com o aumento do desemprego. Subitamente, o filme acaba. Daí, camarada, difícil não estremecer.

Aufstellung nos mostra um ponto de vista vindo de conceitos – e são essas técnicas de pensar, ver e reproduzir o mundo que mais interessam Farocki. Talvez ele seja dos cineastas mais influenciados por pensadores como Paulo Virilio, Flusser, Kitler e a teoria da mídia alemã. Mesmo quando ele filma coisas banais, ele busca desvelar os conceitos que guiam as pessoas no dia a dia, conceitos, às vezes, triviais. Um filme como Leben, por exemplo, Farocki vai buscar as técnicas de segurança – outra divertida “nóia” alemã. Assim, ele documenta as aulas de trânsito para as crianças, as aulas de primeiro socorro, as sessões de terapias que sugerem ações, técnicas e reações para brigas no bairro, comportamentos de policiais, partos e situações similares. São situações perigosas que as técnicas de terapia comportamental – eis seus foco – amainam o choque da experiência para, justamente, deixa-las mais precárias. São esses conceitos, essas técnicas, o tema, por excelência, da obra de Farocki.

Desde 2005, com a série Serious Games, Farocki revela-se inquieto com o advento do digital. Ou melhor, pelos conceitos que o digital articula. Acho que nenhuma das suas obras lida com isso de maneira mais direta que Parallele, vídeo que mais gostei nessa visita a Galerie Barbara Weiss. Parece uma obra didática que passa, rapidamente, pela evolução dos gráficos, do espaço e da reprodução da natureza nos videogames dos anos oitenta até chegar nos programas mais tridimensionais e contemporâneos. Farocki quer comparar a imagem da película com essa outra, mais nova, ainda misteriosa. Parece voltar ao vento dos irmãos Lumières e acaba contrastando a mímesis do vento na película, que chega num compacto, com a reconstrução minuciosa, matemática, algorítmica, do vento no digital. Faz mesmo com a água, com as árvores. A natureza na película diverge totalmente da natureza quando codificada pela máquina de Turing.

Aos poucos, Farocki parece sugerir que o digital urde um nova materialidade, paralela, como um modelo modelador de outros modelos. O paralelo como título da obra vem, claro, da comparação da película e da sua “redenção do real”, como chamava Kracauer, com os parelelismos novos, sobrepostos ao real. Nesse modelo que cria paralelismos não há memória – base, talvez, da mimesis, mas tão somente imersões, sensações, projeções. Entramos no reino da superfície. Onde o superficial, matemática e minuciosamente construído, previsto e premeditado, transforma-se num substantivo imperioso. Nessa ontologia do digital, se plausível, os meus olhos, por demais analógicos, quedam certamente assustados. Creio que é esse susto que Farocki queria compartilhar.

Para quem quiser conhecer mais do cineasta sugiro essa boa introdução do Thomas Elsaesser, melhor historiador do cinema alemão que conheço. Recentemente ele organizou um livro bem com completo sobre Farocki, Seu artigo está na  Senses of Cinema.

Por fim, uma dica: não deixe de ver “Videogramas de uma revolução” que Farocki acompanha junto com  André Uiica, e pelo viés da TV oficial, a queda, o julgamento e a “filmagem” do fuzilamento de Nicolae Ceausecu. Esse filme não está naquela caixa de Dvd, mas você pode assisti-lo inteiro no youtube. Aqui vai a primeira parte. Enjoy it.

https://www.youtube.com/watch?v=AGdn_eABGyA

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