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J. Edgard, de Clint Eastwood. Afetos e gestos contidos.

Nos últimos anos, a obra de Clint Eastwood vem saudavelmente desafiando qualquer afã de classificação. Vale a pena, aqui, recapitular alguns dos seus gestos estéticos mais interessantes. A primeira surpresa veio com Gran Turino. Certamente, esse filme será o último com uma atuação de Clint. É bem provável que não venhamos mais a figura de durão (tough  guy), meio ranzinza, estranhamente generoso, justiceiro, ora moralista, ora amoral,  que ele encarnou nas suas longas décadas de atuação. Clint percebeu que esse tipo desbotou frente a um contexto multicultural, complexo e cheio de contradições como revela o nosso atual quadro de valores. É este deslocamento que vemos em Gran Turino. Como seu sua figura não estivesse apenas velha, mas nua de sentidos para os contemporâneos. Clint, o diretor, filmou a despedida do seu personagem, um réquiem, e enterrou esse típico homem norte-americano do século XX.

Vieram, em seguida, obras tão diferentes como Hereafter (e minha leitura desse filme você pode conferir AQUI), e Invictus, com uma bela homenagem a Nelson Mandela. Um primeiro ímpeto seria aproxima-las do melodrama. Ledo engano. Os passos de Clint costumam ser sutis. Essas obras utilizam-se do pathos melodramático de uma maneira mais comedida, focando os pequenos gestos dos personagens, os momentos em que há uma troca e um diálogo. Nesse recorte, são filmes que apostam em fagulhas de trocas intersubjetivas. Instantes à margem de grandes arcos narrativos e que já estavam latente em As pontes de Madison, sua obra mais romanesca.

Em J. Edgard (2011) essa trajetória parece ter entrado em curto-circuito. Trata-se de uma biografia de J. Edgard Hoover (interpretado por Leonardo Di Caprio), um personagem fascinante, cheio de contradições, que revelam a trajetória de moralização, profissionalismo científico nas investigações e loucura perseguitiva do FBI. J. Edgard foi seu presidente por mais de trinta. Era contra os comunistas, contra o movimento de reivindicação direitos aos negros e um chantagista do alto escalão do governo. Até aí seria um personagem clássico facilmente interpretado pelo próprio Clint. Num forte conflito interno, J. Edgard nunca lidou bem com sua homossexualidade. Ele teve um caso velado (e público) com Clyde Tolson, com quem trabalhou e conviveu ao longo da sua carreira. O gesto mais afetuoso, bem mostrado pelo filme, era a insistência em almoçarem todos os dias juntos.

Se essa biografia é instigante, tanto a mise-en-scene como a montagem, num sentido oposto, parecem desconfortáveis com o personagem. Tudo leva a crer que Clint perdeu a mão de diretor ao encarar a alma de J. Edgard. Algo parece incomodar. Isso fica claro nas cenas mais homoafetivas que são filmadas cheias de hesitações, de maneira  quase rude e deixam escapar os potenciais gestos de carinho que estão dentro da cena e da situação dramática. Uma pena. A ousadia na escolha do personagem parece  gaguejar frente ao difícil desafio de retrata-lo com mais sutileza. A direção fica contida, uma contenção um tanto esquizofrênica assim como era a própria homossexualidade de J. Edgard. Essa imprecisão de estilo, contudo, talvez seja um interessante sintoma do impasse que o próprio Clint traça na sua mais recente trajetória.

Seguem algumas dicas de leituras sobre Clint. No ano passado tivemos a mostra Clint Eastwood: clássico e implacável, com sua obra completa  como ator e diretor, que rodou os CCBBs do Rio, Brasília e Sampa. Foi uma boa oportunidade de debater esse cineasta. Compartilho AQUI  o catálogo dessa mostra e recomendo especialmente a leitura do texto de abertura “O percurso inteiro,  de Richard Schickel. Também recomendo a ótima entrevista que ele deu para a Cahiers du Cinema, a qual você pode acessar AQUI.

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Hereafter, de Clint Eastwood

Ok, você pode não acreditar. Ou ter a mínima paciência para este papo místico, religioso, metafísico. Fique `a vontade: hoje ninguém vai te encher a paciência e perguntar, indignado, qual os ortodoxos ansiosos que te abordam na rua, “como assim, nada depois da vida?” Seu silêncio será bem-vindo. No mínimo, não soará esquisito.

A tela preta. E nada mais.

Esse foi o recado de Pier Paolo Pasolini no seu filme mais religioso. A tela preta: para este mundo racional, cheio de regras e protocolos. Sem graça. Uma tarja, já que eivamos rumo a este consumismo desenfreado, costurado por um tal pós-tudo.

Pós-romântico, pós-utópico, pós-9.11, pós-crise de 2008, e cá estamos – “Hereafter” – vendo o novo filme de Clint Eastwood. Creia, se quiser, é claro, o filme retrata mais este mundo de aquém-túmulo do que outro qualquer, qual seja ele, caso haja ou não. Eastwood tece seu melodrama focado em mostrar a superficialidade e a falta de emoções sinceras que habitam nosso rol de relações. Seja na família, no trabalho, entre os pares amorosos ou com os nossos mortos, guarda-se uma resignação e um silêncio. Uma ausência. Um hiato. Uma espécie de vazio entre dois gestos comedidos, tímidos, quase-gestos. É, novamente, o tema da incomunicabilidade que Eastwood desperta. De um jeito distinto, mais clássico, talvez, da forma que diretores como Antonioni, Tsai Ming Liang ou Michael Haneke retratam esse tema. Neste argumento, pouco importa se esta conexão e comunicação é física ou metafísica. Para Eastwood ela esfacelou-se. Ocorre raras vezes. E ponto.

Com a sua costumeira sutileza, Eastwood esboça uma crítica ao racionalismo exacerbado e ao materialismo, fatos que inoculam a cultura ocidental contemporânea. Este chão cultural – encha o peito e diga: esta “civilização” – não se prepararia para compreender acontecimentos aleatórios, caóticos, e inexplicáveis. Por isso a Tsunami, os atentados terroristas e as ondas de demissões, que se infiltram entre as três histórias, possuem tanto significado dramático. Mais do que trágicos, eles traduzem a fraqueza da “condição humana”.

Neste sentido, Eastwood se aproxima de uma espécie de teologia materialista, que é o conceito de Zizek para interpretar Kieslowski, o famoso diretor polonês da trilogia das cores e da série “Decálogo”. Aliás, há vários ecos de Kieslowski em “Hereafter”. Como na história dos gêmeos de Londres, que lembram as duas personagens metafisicamente siamesas de “A dupla vida de Veronique”, ou as propagandas e o desastre da apresentadora francesa, que logo remetem a Vermelho (Rouge) da triologia das cores. Eastwood e Kieslowski partem deste retrato materialista para olhar de perto, prenhes de emoção, os dilemas éticos que o acaso nos impõe. Eles estão mais preocupados nos gestos mínimos, cotidianos e banais do que nas grandes questões metafísicas, místicas ou teológicas. Estão atentos aos afetos  e gestos delicados que podem emergir de maneira fugaz e intensa – num simples encontro de olhares de dois personagens. Ou num mero toque, quase epifânico, que revele algo intenso, simples e sincero. Como, eticamente, a vida poderia e deveria ser.

A aposta no acaso. Nos encontros fortuitos. Que ocorrem, sim, mas que estavam fora do programa. Longe do ritmo e das regras oficiais. Longe do trabalho, da família, do estado. Em “Hereafter”, os poucos momentos em que uma comunicação realmente ocorre, ela materializa-se assim: também caótica e inexplicável. Simplesmente acontece.

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