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Oscar 2012, em oito linhas

Era uma terça-feira de carnaval um tanto chuvosa e o Ricardo Daehn me manda e-mail, me liga pedindo oito linhas sobre o Oscar deste ano. Topei. Fui ver os filmes que ainda não tinha assistido e cheguei a uma opinião bem sintética que deixo aqui abaixo. Juro, são só oito linhas para um improvável melhor filme. Foi publicado, tal como está, no Correio Braziliense de ontem, junto com as opiniões do Ciro Marcondes e da Karina Barbosa.

Segue o que escrevi:

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Já chamaram Hollywood de “gênio do sistema”, onde há acrobacias entre doses de conservadorismo e pitadas de inovações. Se histórica, a festa de 2012 seria uma pirueta. Melodramas, filmes nostálgicos da Paris moderna ou da Los Angeles dos tempos mudos são filmes que já vimos e que, claro, gostamos de rever. Surpreenderia um Oscar para “A árvore da vida”, obra sinfônica, experimental, que aposta na meditação estética em tempos de crise, séries para TV e euforia 3D. Seria como (não) premiar 2001 ou Cidadão Kane, falhas que maculam a Academia. Meras reações a obras ímpares, que sobrevivem `as  décadas, como as inquietações do gênio que o sistema (não) suporta.

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Hoje acabei lendo na Ilustrada, da Folha, uma entrevista com o produtor Bill Pholad, do filme “A árvore da vida”, de Terrence Malick  (quem quiser pode conferir uma crítica minha desse filme AQUI). Pholad critica de maneira àspera a forma precária como Hollywood lida com suas atuais produções. Concordo com quase tudo que ele disse. E sempre pensei que os filmes de Malick são um, entre tantos e tantos outros, dos caminhos possíveis para uma renovação estética e política dos filmes americanos. Um caminho arriscado, mas que apontaria para uma pulverização necessária e diferente da atual. Preferi pensar num Oscar ligeiramente diferente da cobertura que estamos acostumados. Uma hipótese bem inusitada, um devaneio que se, ocorresse, traçaria uma interessante ponte entre Cannes e Hollywood.

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Arquivado em Hollywood, Oscar

Árvore da vida e Melancholia

Gostemos ou não deles, mas os últimos filmes de Terrencie Malick e Lars von Trier são fundamentais para oxigenar nossa relação com o universo-cinema. Essas duas obras representam um movimento que merece uma atenção mais depurada, principalmente da crítica contemporânea. Lembro de Levi-Strauss ao afirmar que a cultura é boa pois nos “faz pensar”. Ele se referia a uma tribo indígena, os Bororo, creio eu, e isso ganhava um sentido todo especial, pois o pensar aqui não é um prolongamento da grande e pretensa racionalidade que marca nossa civilização. Pelo contrario, o pensar-se pela cultura pode ser um gesto tão simples quanto contemplar o mistério das estrelas que cintilam no céu.

Pois A árvore da vida e Melancholia levam nossas retinas a fabular sobre o cosmos. Obviamente que esse gesto não é trivial. E nós, com todo o materialismo que nos oprime uma sensibilidade espiritual maior, parecemos, num primeiro ímpeto, refutar iniciativas como as de Malick e Trier. Talvez esse seja um dos principais sintomas da forma como esses filmes estão sendo vistos – ora com entusiasmo demais, ora com desprezo e frustração – e vale a pena pensar um pouco no que está em jogo.

Ambas as obras não buscam exatamente um reencantamento do mundo, um retorno `a religião por si. A árvore da vida possui sim um tom religioso, mas, curiosamente, mescla explicações científicas sobre a origem da vida com uma aproximação estética, eu diria, mais próxima da prece do que da contemplação. Terrencie Malick produz uma obra que exala reverência, que pede humildade, e nós, na nossa petulância antropocêntrica, não sabemos mais como “rezar na era da técnica” (para prafrasear aqui um belo título de Gonçalo Tavares). Mais próximo de uma vertente trágica, Lars Von Trier sugere uma certa hybris, uma prepotência humana frente a natureza que sequer consegue gerar sensações para o inexplicável. A melancolia, nesse viés, é também uma resposta poética ao irracional, do cosmos, e da nossa época.

Os dois filmes se aproximam disso que chamarei como uma guinada metafísica. Sim, pois a metafísica, pouco a pouco, se readequa e volta ao cenário, com força, revigorante e renovada. Esse retorno, primeiramente, desconstrói o pressuposto cartesiano de conhecer, explicar e perceber o mundo único e exclusivamente pela razão, pelo pensamento e pelo cérebro. Existem coisas que nunca compreenderemos, que, talvez, apenas sentiremos, e é nesse hiato curioso – entre o pensamento e o sentimento – que a metafísica se instala. É claro que a filosofia moderna se esmerou em desmembrar os pressupostos fáceis da metafísica e instalar um maior rigor no raciocínio e impor uma preocupação de explicação preponderantemente material. Acho que esse diagnóstico é válido, mas ele pede uma superação – e não exclusão – do ímpeto metafísico. O pior é que ainda pensamos e filosofamos de uma forma metafísica; ou seja, eivado por deuses, ídolos, essências, conceitos ideológicos. A renovação verdadeira de uma metafísica também passa por deixarmos de pensar, ainda que numa perspectiva materialista, por um viés essencialista. Trata-se de impulsionar a metafísica nos trilhos de um realismo especulativo.

A árvore da vida e Melancholia são filmes, portanto, que respiram metafísica. Eles buscam uma imagem que está além do olho humano. Uma imagem que nunca veremos, que nossas retinas, a despeito de todos os avanços tecnológicos concebíveis, jamais alcançarão. Uma imagem sem olho, pois pré e pós-humana. O filme de Malick nos leva a uma imagem do início, dos primórdios, de todos os gestos cósmicos que nos antecederam e geraram. Lars Von Trier nos convida a supor um conjunto de imagens finais, últimas, derradeiras, os longos e angustiantes e também poéticos instantes que antecedem o fim. Um católico de plantão certamente argumentará que um narrou o Gênesis, e outro o Apocalipse. É por aí, mas tem algo mais. Eles nos mostram, eles nos jogam uma imersão sensorial para vivermos momentos que são ontologicamente impossíveis de serem vividos. É aqui que repousa a ousadia dos dois gestos estéticos dos filmes de Malick, que já vinha nessa trilha, e de Trier. É claro que eles não são isolados e que há uma linhagem da trascendência cinematográfica, em Dreyer, Tarkovsky, Kieslowski e mesmo Bresson. Essa aposta também não redime os filmes de inúmeras imperfeições, mas a minha singela tese é que eles devem ser vistos dentro desse panorama.

A segunda causa da refuta de boa parte da recepção talvez seja propriamente estética. Os dois filmes compartilham de uma verve de obra de arte total (Gesamtkunstwerk), que visa criar uma linguagem única e nova a partir da mescla de todas as artes. Nesse quesito, o resultado de Malick é bem superior ao de Trier, quem se apropria do ideal de Wagner, e da melodia de Tristão e Isolda, para evocar essa totalidade. Malick, da sua vez, cria um universo próprio, um ponto de vista indefinido, e compõe o seu filme como se fosse uma sinfonia. É essa escolha que o permite passear de um plano cósmico para uma árvore, um  gesto conciso entre um pai e um filho. De momentos triunfantes, para instantes quânticos.

Contudo, boa parte da estética cinematográfica contemporânea vem apostando em momentos menores, discretos, rarafeitos e numa dramaturgia mínima. Sobretudo nesse círculo de “cinema de autor”, ou de autores de Cannes, por onde passeiam Malick e Trier. É nesse sentido que, creio, essas duas obras caminham na contramão e geram uma recusa imediata. É essa contradição que as tornam sociologicamente interessantes.

O curioso é que um filme maravilhoso como Tio boonmee que pode recordar suas vidas passadas, de Apichatpong Weerasethaku, que bebe numa fonte metafísica esteticamente similar, gera um estardalhaço e uma empolgação com raros precedentes no meio cinéfilo. Talvez estejamos enfastiados da estética metafísica judaico-cristã e afoitos por uma metafísica que aponte novos rumos estéticos – ainda que nada tenhamos de budistas.

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