L’ Apollonide, de Bertrand Bonello

Casa Apollonide, primeiros dias do século XX. Cerca de doze prostitutas almoçam. Elas estão famintas, após uma longa noite de trabalho árduo, pesado, intenso, sobre-humano. À mesa, a conversa remete aos acontecimentos da última noite. Uma delas conta da tara do seu cliente, que masturbava-se enquanto encenava uma confissão a um padre. Vá entender, eles sequer transaram. Em coro, todas riem, vingam-se, talvez, num anseio de sublimação. Em seguida, outra colega emenda: queria, um dia, poder visitar um prostíbulo masculino, com todos homens cheirosos, limpos, atentos, e sempre disponíveis – com ereções sem fim.

Seria, obviamente, uma inversão, ter os homens como eles costumam tê-las. Quase possível nos nossos dias, o devaneio dessa personagem, no entanto, era tão somente uma miragem feminina na longeva aurora da Belle Époque. E assim, com olhos e meneios femininos, L’ Apollonide, de Bertrando Bonello, nos conduz ao cosmos da prostituição. Não seria mero acaso, ora, que a ação esteja circunscrita `a casa, local onde as mulheres, antigamente, “faziam comércio” com seus clientes. A casa, onde elas se perfumam, se vestem, se limpam, trepam e se consolam. O maior mérito desse filme está na sua atenção aos detalhes que enfeitam a sala de recepção, os corredores, os quartos para o sexo. Não me refiro apenas ao primor da arte e do figurino, mas a uma série de procedimentos e rituais que rodeiam o ofício das prostitutas do século XIX. É no mínimo instigante saber que elas dormiam juntas, dividindo camas, logo após receberem seus clientes; perceber como se fazia sua dependência com as dívidas, as promessas vãs de casamento ou liberação, como se fosse um trabalho quase escravo; ou ainda acompanhar o sinistro definhamento inoculado pela sífilis.

Pela casa forjam-se retratos provisórios. Temos a viciada em ópio, a apaixonada, a mística, a sonhadora, a pragmática. De todos esses portraits, vale destacar Pauline (Iliana Zabeth), que escreve uma carta à dona da casa L’ Apollinide e quer de fato tornar-se uma prostituta para alcançar uma maior independência. Pela sua conduta, a prostituição seria um caminho profissional de libertação. A sua trajetória de iniciação revela o arco da moça ingênua à individualista, que, subitamente, aprende a manejar as máscaras caras ao ofício. Mais jovem – e mais bela, ela acaba roubando clientes das suas colegas e despertando invejas, traduzindo, assim, um jogo que mescla solidariedade com competição.

Juntamente `a ênfase nos detalhes, Bonello acerta no tom do filme, que não enaltece, não estranha nem melancoliza suas personagens. Certas vezes, essas prostitutas ganham ares pops, de heroínas anônimas, meio pueris, um tom caro à Maria Antonienta de Sofia Coppola. Em outros momentos, adquirem contornos grotescos, como o travesti Tirésias do próprio Bonello, ou, tal como na cena do crime inicial, sofrida pela apaixonada Madeleine (Alice Barnole), que inscreve no rosto da prostituta uma certa máscara trágica. Não se trata de um tom apenas oscilante, mas que sabe construir personagens distintos de cadências dicotômicas, maniqueístas, e que ganham beleza pelas contradições que evidenciam.

Há inúmeras referências que Bonello evoca. A mais imediata é o clássico La belle de Jour, de Luís Buñel, que foi lembrado por Manoel de Oliveira no seu Belle toujours. No entanto, a cadência da mis-en-scène remete a  Flores de Shangai, de Hou Hsiao-Hsien, sobretudo nas relações entre degradação e beleza, vício e virtude. Os movimentos da câmera de Bonello, e seus enqudramentos ousados, muitas vezes remetem ao marcante estilo desse diretor chinês. Sobre o tema, eu lembraria de outros filmes instigantes como De olhos bem fechados, de Stanley Kubirck e As rosas da estrada, de Ozualdo Candeias, um olhar peculiar do cinema marginal e da nossa pornochanchada. Numa vertente mais feminista e contemporânea, vale muito conferir o fime de Chantal Akerman, que retrata Jeanne Dileman, em longuíssimos detalhamentos, uma mulher solteira, comum, imersa num cotidiano de dona de casa, que prostitui-se enquanto seu filho estuda e está na escola. Trata-se de um olhar mais abrangente que conota a prostituição como uma forma de luta e justifica-a enquanto postura.

As prostitutas de Bonello retomam o tema dos encontros entre erotismo e estética já presentes em O Pornógrafo (2001), um dos seus primeiros filmes, que retrata um diretor de filme pornográfico em fim de carreira. Interpretado por Jean-Paul Leaud, esse cineasta é filho das revoluções estudantis dos anos sessenta e acreditou que a pornografia poderia nos levar a inovações estéticas e de valores. É por uma visão um pouco bizarra da estética, portanto, que Bonello tenta nos guiar por esse fervor dos detalhes, das belezas, dos jogos e das fantasias que as prostitutas do século XIX encarnavam. Um encontro, quem sabe, entre as forças apolíneas e dionisíacas conclamadas por Nietzsche, evidentes nas potências estéticas. Como se as formas perfeitas dos corpos quando jovens combinassem intensamente com os ímpetos também destrutivos da pulsão sexual.

Ao apostar nessa proeminência estética, o olhar feminino revela homens menores, frágeis, quase meninos desprotegidos, ou sinhozinhos malvados cujas perversões as mais estapafúrdias figuram como um contraponto à importância social que eles possuem. É no riso dessas mulheres que as ambivalências desse tão entranhado jogo são espelhadas – e num gesto estético, numa ousadia ética, aposta-se na transcendência dessa mesma condição.

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