Wislawa Szymborska

Wislawa Szymborska (1923 – 2012) foi uma poetisa polonesa que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1990. Pode-se ler seu belo discurso para o Nobel nesse site.

Ela, sim, a minha melhor descoberta literária do ano passado. Seu estilo de poesia, ao menos para mim, dispensa qualquer anseio de intermediação, comentário ou crítica. Prefiro-me solto na sua leitura. Buscar as pausas, os entreatos. Curtir esses versinhos sussurrando-me ao longo do dia. E assim quero deixar-te, leitor, em contato direto com os versos.

Quem quiser algo mais conceitual sobre Szymborska sugiro esta resenha do Carlito Azevedo ou mesmo a boa introdução da tradutora Regina Przybycien que está no livro Poemas, lançado pela Cia das letras ano passado. Os três abaixo – Possibilidades, Excesso e Retornos – são algo como a minha antologia retirados dessa singela edição.

Aliás, adoro essa foto que é a da capa do livro. Me lembra do orgulho ferino da Hilda Hilst – na maneira como segurava um cigarro e olhava frente a frente para a câmera, sem medo algum. Fumante inveterada, Szymborska morreu de câncer no pulmão em janeiro deste ano.

Ao lê-la, não percebo uma relação trágica com a morte. É no efêmero, sutilmente, que Szymborska abriga seus versos, como nesses finais do poema Nuvens: “Sobre a tua vida inteira / e a minha, ainda incompleta,/ elas passam pomposas como sempre passaram./ Não têm obrigações de conosco findar / Não precisam ser vistas para navegar.”

Pronto, já começamos a lê-la.

        Possibilidades

Prefiro o cinema.

Prefiro os gatos.

Prefiro os carvalhos sobre o Warta.

Prefiro Dickens a Dostoiévski.

Prefiro-me gostando das pessoas

do que amando a humanidade.

Prefiro ter agulha e linha à mão.

Prefiro a cor verde.

Prefiro não achar

que  a razão é a culpada de tudo.

Prefiro as exceções.

Prefiro sair mais cedo.

Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.

Prefiro as velhas ilustrações listradas.

Prefiro o ridículo de escrever poemas

ao ridículo de não escrevê-los.

Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,

para celebrá-lo todos os dias.

Prefiro os moralistas

que nada me prometem.

Prefiro a bondade astuta à confiante demais.

Prefiro a terra à paisana.

Prefiro os países conquistados aos conquistadores.

Prefiro guardar certa reserva.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.

Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.

Prefiro os cães sem a cauda cortada.

Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.

Prefiro as gavetas.

Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui

a muitas outras também não mencionadas.

Prefiro os zeros soltos

do que postos em fila para formar cifras.

Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.

Prefiro bater na madeira.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro ponderar a própria possibilidade

do ser ter sua razão.

Excesso 

Foi descoberta uma nova estrela,

o que não significa que ficou mais claro

nem que chegou algo que faltava.

A estrela é grande e longínqua,

Tão longínqua que é pequena,

menor até que outras

muito menores que ela.

A estranheza não teria aqui nada de estranho

se ao menos tivéssemos tempo para ela.

A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da estrela,

tudo isso quiçá seja suficiente

para uma tese de doutorado

e uma modesta taça de vinho

nos círculos aproximados do céu:

o astrônomo, sua mulher, os parentes e os colegas,

ambiente informal, traje casual,

predominam na conversa os temas locais

e mastiga-se amendoim.

A estrela é extraordinária,

mas isso ainda não é a razão

para não beber à saúde das nossas senhoras

incomparavelmente mais próximas.

A estrela não tem conseqüência.

Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo,

na mudança de governo, na renda e na crise de valores.

Não tem efeito na propaganda nem na indústria pesada.

Não tem reflexo no verniz da mesa de conferência.

Excedente em face dos dias contados da vida.

Pois o que há para perguntar,

sob quantas estrelas um homem nasce,

e sob quantas logo em seguida morre.

Nova.

– Ao menos me mostre onde ela está.

– Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada

e aquele galinho de acácia mais à esquerda.

– Ah – exclamo.

Retornos 

Voltou. Não disse nada.

Mas estava claro que teve algum desgosto.

Deitou-se vestido.

Cobriu a cabeça com o cobertor.

Encolheu as pernas.

Tem uns quarenta anos, mas não agora.

Existe – mas só como na barriga da mãe

na escuridão protetora, debaixo de sete peles.

Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase

na cosmonáutica metagaláctica.

Por ora dorme, todo enroscado.

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