Drive, de Nicolas Winding Refn

Esse filme valeria justamente por esta sequência inicial, que é um puro deleite cinematográfico. Com um rápido telefonema ficamos sabendo que o protagonista participará de um assalto. Ele logo avisa: não é bandido, apenas dirige. E assim, subitamente, entramos no seu carro. Um ambiente lúdico, emotivo e protegido. Com ele, o motorista, dirigir torna-se uma forma tranqüila, segura e agressiva de estar no mundo. Uma pegada estética. A cena de carro ganha matizes mais ritmadas logo após o assalto, os tiros e o início da perseguição e inicia-se o clássico clichê do cinema – com carro para lá, carro para cá. E aqui percebemos um domínio pleno da mise-en-scene e montagem que articula uma perseguição cadenciando vários elementos habilmente articulados. No rádio, ouvimos uma narração de um jogo de basquete. O motorista também tem acesso `as conversas entre a polícia. Sinal vermelho: o carro pára e lá fica. Alguns segundos estratégicos. Enquanto isso, expectativa, um helicóptero percebe o carro do assaltante e guia a perseguição. O que vemos, assim, é uma virtuosa decupagem da cidade. Ora na perspectiva do motorista e, outras vezes, em plongés que evocam uma visão geral da malha urbana.

Contudo, após essa seqüência o filme descamba. Um simples encontro no elevador e já cruzamos com a mocinha griffthiana da dramaturgia clássica. É coincidência demais. Eles são vizinhos. Ela está com o marido preso e vive só, com um filho. Embora a aproximação dos dois aponte para a delicadeza – como no belo instante em que passam uma tarde de “família” brincando com a criança – entra-se, no decorrer do ato violento da estória, no velho mote “a girl and a gun”. Ainda que o roteiro revele momentos interessantes, como a ajuda do protagonista, tão solidário e compreensivo, justamente com o marido da sua vizinha, resvala-se em cenas de máfia descabidas, forçadas e uma sangria tão desatada quanto gratuita .

É claro que as cenas são filmadas de forma impecável, e até mesmo brilhante. Elas realçam um personagem hesitante entre a tranqüilidade, a doçura e uma agressividade desmesurada. Há câmeras lentas que algumas vezes funcionam bem – como a cena do beijo, no elevador. Mas várias outras levam esse perfeccionismo técnico e narrativo da direção a um maneirismo que deve ser ciriticado. Até mesmo as cenas de exploitations, com cara influência de Tarantino e cia, não possuem uma liga narrativa interna ao filme que esteja articulada com naturalidade. Uma pena.

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Arquivado em Cannes, Festival de Cinema do Rio, Filmes atuais

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