Abismo prateado, de Karim Aïnouz

De pés descalços

Karim Aïnouz inscreve sua poética em lugares transitórios e instantes fugidios. Motéis. Postos de beira de estrada. Banheiros públicos. Hotéis vagabundos. Moto-táxis. Um novo lar ainda inóspito, pois os objetos, íntimos, amontoam-se entre caixas, plásticos e papelões. Um aeroporto vazio, em plena madrugada. Uma ponte rio-niterói ao amanhecer. Um carro-só-estrada, sem sujeito visível, como no road movie subjetivo que é Viajo porque preciso, volto porque te amo. Envoltos por esses territórios do efêmero, seus personagens buscam algum reconforto, mínimo que seja.

Em Abismo de prata, seu último filme, esse mote repete-se, insistente e delicadamente, como num mantra. A história é tão banal como, `a distância, soa toda narrativa de término e abandono. Djalma (Thiago Martins), decide partir e deixar Violeta (Alessandra Negrini). Não tem mais volta e, embora não saibamos as causas e os motivos do “conflito” e ainda que tenham um filho de catorze anos e uma casa recém-comprada – Violeta percebe o fim. A narrativa, portanto, condensa o primeiro dia de um pé na bunda. Narra-se pela perspectiva do cotidiano de Violeta: o sexo matinal, o banho, o secador de cabelos, sua ida ao trabalho, seu atendimento como dentista, a malhação na academia, o andar de bicicleta em meio a um tráfego agressivo. Ao receber a fatídica notícia, o cotidiano é interrompido. Como se toda a encenada coreografia da “cidade maravilhosa” – de carros, bicicletas, ônibus, transeuntes e jogging no calçadão – apertasse pause e pedisse, ou mesmo sugerisse, um instante qualquer de silêncio.

Mas esse silêncio não chega. Sutilmente, é a paisagem sonora do filme que dramatiza e conota o tormento interno de Violeta. Ela fala pouco, mas ouvimos o seu borbulhar afetivo. A obra do vizinho. O som da rua, sempre estridente. E até mesmo o ruído do mar, que assusta mais do que acolhe. Na rua, desamparada, ela encontra um Rio de Janeiro singular. O Rio dos migrantes, dos estrangeiros que não são turistas, que não são “gringos” e que tampouco possuem família ou amigos por perto. Violeta, assim, ao acaso, se  depara com afetos. São instantes passageiros. Momentos raros de solidariedade em plena madrugada, quando a escura noite da metrópole conotaria apenas indiferença ao seu silencioso e discreto melodrama.

No entanto, o melhor do filme está na depuração da imagem. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr. acerta na sutileza em que destila a tonalidade prata entre a arte e a paisagem. Das cenas em que vemos um mar denso, escuro, até os ambientes internos, como o banheiro, o consultório da dentista, os tons metálicos do aeroporto, os flashs da boate – tudo reluz numa matéria prata única. Talvez a prata revele esse enigma de algo que permanece, mas ao contrário do ouro, também sabe fenecer. Há uma força nessa luz, que circunda Violeta, assim como uma resignação, um aceite da condição daquilo que declara-se passageiro.

Abismo prateado não é o melhor filme de Karim Aïnouz. Em alguns momentos a encenção e a atuação não convencem. Tampouco alcança-se o brilho da combinação entre  imagem, mise-en-scene e roteiro dos seus últimos filmes. Ainda assim é instigante acompanhar uma trajetória que sabe, como poucos, equilibrar ousadia com expressividade; criatividade audiovisual com preocupação dramatúrgica. Ao final, ao acompanharmos o périplo tão comum de Violeta saímos como  se andássemos junto com ela. Como se sentíssemos a mesma areia, o mesmo asfalto que ela pisa.

De pés descalços a travessia é sim mais dolorosa. Mas talvez também mais intensa verdadeira – e preciosa.

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