Deslocamentos e persistência – “Eu recebria as piores notícias dos seus lindos lábios”.

Uma cidade pequena, Pará. Aos nossos olhos urbanos, uma terra distante. De difícil acesso. Horas de barco e estradas de terra. Pode verificar, quando chega alguma notícia do Pará aos jornais é para enfatizar conflitos. De garimpeiros. De madereiros. Eivados, quase sempre, por discursos catastróficos ou ecológicos. Fotos de massacres ou gente lutando por uma autonomia de vida; ou, ainda, mostrando uma terra sem lei, sem educação. No máximo, chega algo folclórico, estilo tecno-brega. É óbvio que um universo tão heterogêneo como o dessa região não se reduz `a maneira simplificada como, nós, do lado sudeste-sul do país, os “formadores de opinião”, o vemos.

E lá – em alguma casinha tórrida do Pará – encontramos os personagens de Marçal Aquino, autor do romance que deu origem ao filme Beto Brant. Eles nos contam uma história de paixão, um idílio tropical. Cauby (Gustavo Machado) é um fotógrafo que paira por ali e não sabemos ao certo para quem tira fotos. Lavína (Camila Pitanga) tem um passado obscuro, quando morou no Rio de Janeiro. Eles viverão uma paixão intensa, altamente erótica e auto-destrutiva.

Os outros dois personagens principais também são forasteiros. Ernani (Zé Carlos Machado) é o pastor que sai da metrópole para pregar a redenção ao povoado do Pará e cuidar de Lavínia, quem acolheu e redimiu. E Vikor Laurence (Gero Camilo) faz um homosexual jornalista que é afetado por citações literárias. Esse quarteto de personagens evidencia um deslocamento espacial e simbólico. São pessoas de passagem, sem um vínculo forte com a terra onde estão, com objetivos imediatos, mas ainda um tanto indefinidos. São, talvez, indivíduos perdidos, `a fuga.

O interessante dessa relação dramática é que ela traduz o deslocamento dos personagens para uma perspectiva opaca de leitura com o local. Tudo o que vemos – que emerge da terra- é periférico, distante, de difícil apreensão, pulsante na profundidade de campo. São fatos e pessoas que temos dificuldade em traduzir. Talvez seja o próprio olhar do espectador frente ao local onde se passa o filme. Sutilmente, essa estratégia dramática insiste em ressaltar personagens deslocados frente a paisagem – o que evita, ao menos um pouco, uma identificação romântica com cidades do interior (pegada já bem denunciada em Dogville de Lars Von Trier). Esse tipo de deslocamento – nos rastros da velha tematica centro/periferia – possui no filme Os Fuzis, de Ruy Guerra um bom exemplo. São, nesse clássico do cinema novo, as armas que evidenciam a distancia entre quem chega e quem lá está. Aqui, nessa obra contemporânea, são os discursos que traduzem distintos locais de fala. As falas do jornalista, do fotografo, do pastor possuem leituras preconceituosas, com as quais, muitas vezes, compartilhamos. Pessimista, o tom dramático realça uma crueldade das pessoas e do local, como se fosse pior do que imaginamos. Como se nosso mapa, nossa cartografia, nos permitisse um contato “real” apenas quando mediado por fotos, sermões ou reportagens.

Ainda assim, narra-se uma história do amor. E aqui encontramos o enigma Lavínia, que, aliás, revela a melhor atuação de Camila Pitanga até hoje. No livro ela possuía um quê de Femme Fatale `a luz paraense que, creio, dilui-se no filme. Era o seu mistério que levava Cauby e Ernani a implosão. Uma mulher que se manifesta pelo corpo, pelos lábios, as mãos, os quadris – é totalmente exógena. Lavínia oscila entre um amor carnal e outro paterno, mais tranqüilo e acolhedor. No fim, saberemos entende-la melhor, como ela ultrapassa uma certa vitimização que estaria condenada.

O melhor de Cauby, paralelamente, está no modo como conduz a sua paixão. Ele a compreende aos poucos, entre os golpes, os jogos escrotos, e as revelações caras ao tempo. Por isso parece ser construído e pautado pela persistência. É claro que não revelarei o final do filme, mas vale a pena atentar para a forma como ele insiste em (re)viver sua paixão. Em histórias passionais essa tônica é rara, pois ora oscila-se em catástrofes, ora em happy ends arbitrários. O que vemos, nesse filme de título longuíssimo, é um personagem que já sabe que não encontrará o amor tal como ele o descobriu, mas que, sabiamente, aposta na sua reinvenção. Como se da morte de um ciclo amoroso, entre seus vestígios que latejam, pudesse brotar novos caminhos, delicados e inusitados. Rara e preciosa, há, nessa postura de Cauby, uma poesia da persistência, que – ora paciente, ora cética, tem na ética da espera o seu último resguardo.

Dentro da obra de Beto Brant esse filme representa um retorno a uma preocupação mais narrativa e dramática. Pessoalmente, prefiro a as escolhas estéticas da última trilogia, que abarca Crime Delicado, Cão sem dono e O amor segundo B. Schianberg (veja AQUI meu comentário sobre esse singelo reality show). Há, nesses três filmes, uma dispersão da encenação e uma forma de atuação menos marcada pelo pathos. Seriam instantes, apenas, onde nos encontramos com os personagens. Sem grandes reviravoltas. Sem muita dramaticidade.

É nesse sentido que as atuações e as mise-en-scene oscilam entre pontos altos e baixos. Em alguns instantes resvala-se no melodrama, e perdemos todos. Em outros,  vemos lampejos dramáticos bons, instantes poéticos – sobretudo sonoros – que tocam, e jogos com a câmera que encantam. É um filme que aposta no sensível, nas emoções que pulsam de dentro para fora e que emergem para encontrar a pele, numa estética que quer tocar a superfície e por lá ficar.

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2 Comentários

Arquivado em Cinema brasileiro, Festival de Cinema do Rio

2 Respostas para “Deslocamentos e persistência – “Eu recebria as piores notícias dos seus lindos lábios”.

  1. gostei do texto, como morador e filho da região vc traduz esse sentimento. aguardo o filme desesperadamente.
    andre varela. manaus

    • Oi André,

      Bom saber da sua leitura aí de Manaus. Aproveito para te contar um caso que talvez possa ser interessante. Li o livro do Marçal, boa parte dele, na viagem que fiz à Amazônia, em 2008, quando passei uma semana com Yanomamis. A minha sensação do livro – lendo na rede, cheio de mosquitos, era de um puro deslocamento. Mas o estranho é que essa mesma sensação me causava conforto… .De alguma forma, achei essa leitura no filme do Beto. Quando puder, não deixe de ver. Abraços, Pablo.

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