Por uma esfera pública do cinema em Brasília

Texto publicado em novembro de 2009 para o Correio Braziliense. Ele está bem datado e hoje o debate é outro. Mas ando inquieto com os novos rumos do Festival criado por ninguém menos que Paulo Emílio Salles Gomes…. .

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Interior / Noite. Cine Brasília. É novembro. A fila amontoa-se na saída do maior cinema da capital do país. Todos cochicham. Todos reclamam. Espectadores, atores, cineastas, autores dos filmes exibidos, técnicos de cinema, jornalistas, críticos, membros do júri e até os organizadores do festival – todos ruminam seus resmungos. A insatisfação é geral. A indignação, coletiva. Lá fora, a chuva ofusca as poucas luzes, os raros flashs – frente a um glamour esmaecido, a chuva é mais forte.

Sim, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro está em crise. Para o bem ou para mal, é preciso reconstruí-lo, é preciso repensa-lo. Testemunhamos uma concepção de festival agarrada a um passado remoto e atônita por não encontrar respostas que guiem os seus próximos passos. Os últimos anos nos desenharam uma encruzilhada. São os frutos de uma curadoria problemática e de critérios anacrônicos oriundos da forma como foram selecionados e julgados os filmes.

O valor de um Festival de cinema é traduzido pelo seu poder de pauta, pela sua força em influenciar cineastas e espectadores. Cannes, Veneza e Sundance, por exemplo, são festivais exímios em criar uma agenda de discussões sobre estética, política e economia, debates que pulsam mundialmente. Esses festivais, contudo, só sobrevivem há décadas porque se moldam e se adaptam `as mudanças históricas do cinema.

Não é o que vemos no festival de Brasília. Ao contrário, os critérios que guiam as escolhas do festival ainda são os mesmos da época e do período da sua fundação, quando buscava-se uma estética nacional-popular, uma discussão utópica para a realidade política brasileira e valores diretamente atrelados ao cinema moderno. Os documentários de denúncia com pautas ultrapassadas sobre o país, com temas e argumentos estritamente focados em excluídos, não são suficientes para renovar uma cinematografia. Talvez por isso, o festival criou uma anomalia: especializou-se em elogiar um passado glorioso. Transformou-se no festival das cópias restauradas, dos documentários nostálgicos sobre diretores e atores do cinema novo e do cinema marginal. Anacrônico mesmo quando exige filmes inéditos, como todo ano evidencia-se na fraquíssima seleção dos curtas, que nada dizem sobre a boa produção nacional de curta-metragens.

Dos anos de sua fundação aos nossos dias, contudo, o mundo mudou. O cinema modificou-se profundamente. Também por isso, não pode-se afirmar que o ocaso do Festival de Brasília é o espelho de um suposto declínio do cinema brasileiro. Sejamos honestos: o cerne do nosso cinema não passa mais pelo Hotel Nacional, onde o Festival de Brasília se debate. Os festivais de Rio, São Paulo, Porto Alegre e Recife possuem hoje maior poder de influência e, por isso, são os procurados pelos cineastas mais inquietos do país. Até porque Brasília passou a significar o rescaldo do cinema de autor – outro conceito caduco – onde exibem-se filmes pretensamente rebuscados mas que raramente chegarão aos cinemas, `as Tvs, `as videolocadoras. Brasília é abordada pelos jornais do Brasil como o festival das vaias, das pequenas polêmicas sobre os vencedores e perdedores. Nada mais.

Será este o Festival que desejamos? Apenas com uma modificação profunda da noção de curadoria podemos recuperar a influência do Festival de Brasília. Uma curadoria contemporânea, plural, antenada nas principais tendências do cinema brasileiro e do cinema mundial. Uma curadoria que não se restringe a uma seleção rigorosa e primorosa, mas também costure e aponte uma programação paralela de eventos, contatos, workshops, debates, convidados… .Trata-se de algo bem distinto de uma comissão de seleção provisória. Somente um conselho de curadores – como já é comum nas artes visuais, nas bienais e nos museus de arte contemporânea – pode apontar novos caminhos e renovar o valor simbólico do Festival. Porque não se instala um conselho de curadores com representantes nacionais e internacionais?

O Festival de Brasília também necessita abrir a sua mente para a salutar emergência da revolução digital. Mais do que abrigar a realização e a exibição de filmes realizados em formato digital – o que é urgente – deve-se procurar as inovações estéticas e políticas dessa linguagem. Não pode-se mais pensar o fenômeno cinematográfico da mesma forma de quarenta anos atrás. O espectador mudou. O fazer, ver e pensar cinema também mudou. A própria dinâmica do festival pode renovar-se ao nutrir-se das benesses digitais. Porque os preciosos debates com as equipes dos longas e curtas não são transmitidos pela internet? Imagine podermos realizar downloads de trailers, debates e reportagens… .

Definitivamente, os problemas do Festival de Brasília não serão resolvidos pela alienação e terceirização da sua gestão. Desde sua formulação original, urdida por Paulo Emílio Salles Gomes, o Festival de Brasília foi pensado como um patrimônio público, de debate democrático e transparente, que resumisse o passado, o presente e o futuro do cinema brasileiro. Uma alienação da sua gestão arrisca jogar no lixo esta vocação ao interesse público.

Exterior / Dia. Cine Brasília. De dezembro a outubro. Todos sabem o que vemos: um cinema abandonado. Sem público, com o pipoqueiro estocando milho. Enquanto o tempo passa, e os carros desfilam pelo eixinho, este patrimônio de Brasília torna-se cada vez mais anacrônico. A sua imagem desbotada talvez seja a síntese, o retrato do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A imagem de um sonho interrompido.

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Arquivado em Brasília, Cinefilia, Curadoria, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Filmes brasileiros

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