Brasilíada, Nicolas Behr

Para quem mora em Brasília, ler Nicolas Behr é um alento. Primeiro, sempre gera conforto sentir um poeta que flerta diretamente com a sua cidade. Pois estamos em Brasília, uma pólis eivada por discursos políticos e preconceitos. Uma cidade oficial, sim, que dispensa, e muitas vezes ignora, os seus próprios poetas e artistas. Afinal, artistas não fazem parte do rol de funcionários públicos – os “burocrotauros” – que preenchem os gabinetes da esplanada, que inflacionam os preços, que propiciam a cidade com maior renda do país, e nos ilham, com suas andanças pacatas, com um dia-a-dia medíocre, talvez. Mas poetas como Behr bem sabem retratar essas figuras e, ironicamente, lega-las certa graça. É o que faz nesses versos de Brasilíada, seu último (e pouco comentado) livro:

“o cafezinho quente

a água gelada

o riso fácil

(o salário fácil)

o tapete macio

a conversa macia

o ar macio

(o salário macio)

os termos da poesia,

dispensados

Behr canta o avesso dessa cidade que é regida pelos concursos públicos. Destruir Brasília para inventar Braxília. Pois assim é ele, este poeta cerratense – deslocado, descolado, herdeiro direto da ironia de Oswald de Andrade. Aliado inquieto `a despretensão da poesia dos marginais dos anos 70, Behr tece uma poesia que flerta diretamente com o “mito de origem” de Brasília, buscando a utopia da cidade que ainda não foi inventada.

“brasília inicial, esculpida no barro

superquadra aos cacos

blocos modernos em formas de potes

jk amassando a argila do futuro

canto a brasília que a chuva levou

que a lama tragou

e que o mundo esqueceu”

Mesmo sabendo que “os políticos são visitantes ocasionais/ e logo logo os expulsaremos” é esta cidade de dimensões apolíneas – esta Brasília atual – que o impulsiona a buscar a sua destruição imaginária, para, poeticamente, reconstruir a mesma Brasília de JK e Renato Russo. Behr se veste como um dos “fracassados de Brasília”, a quem Brasilíada é dedicado. Por isso seu deboche encarna o mito de são sebastião no personagem faraônico que foi JK.

“jk voltará glorioso, coberto de asfalto,

poeira e lama, vestindo o manto

de plumas dos tupinambás

na mão esquerda a espada de são jorge

e na direita o tacape de cunhambebe

provocando assim a ira de iansã

e a inveja do saci-pererê”

É com teimosia que essa poesia se ergue. Lenta, paciente – e de pouco valor. Como um fracassado, Behr se orgulha de não participar da lista dos convidados oficiais, das festas chapa branca, de buffets sem risco e sem graça.

Deixo aqui uma brevíssima antologia pessoal do seu último livro:

“persona non grata com muita honra

inclua meu nome na lista dos que nunca

serão convidados”

* * *

“xingar burocrata é fácil

ainda mais em Brasília

quero ver escrever o poema

seguindo os temas, rimas,

espaçamentos, normas, prazos,

e condições estabelecidas

pelo edital anterior”

* * *

“Uma vida inteira para ir

rastejando, de costas,

da praça dos três poderes

até a rodoferroviária

outra vida (se vida

ainda houver) para ir

de uma ponta a outra

do eixão, de joelhos,

lambendo o asfalto

e desviando dos carros”

* * *

“sonhos retorcidos

esperanças se oxidando

ferros me atravessam

e me sustentam

aos poucos

brasília desmorona

dentro de mim”

* * *

Para quem não conhecia, curtiu e quer curtir mais da poesia do Behr, sugiro que entre no seu Site e lá peça e encomende alguns dos seus livros. Copio desse site uma espécie de auto-retrato seu, sabendo que também fracassei se aqui tentei retrata-lo.

POETA MARGINAL? EU, HEIN?

não nasci em montes claros. não tenho nome completo. não sou professor. não consegui conciliar nada com a literatura. nunca publiquei nada. atualmente não resido em porto alegre. não me chamo eduardo veiga. não escrevo poesia há mais de 15 anos. não estou organizando meu primeiro livro. não sou graduado em letras. não acredito que a poesia seja necessária. não estou concluindo nenhum curso de pedagogia. não colaboro em nenhum suplemento literário. não estou presente em todos os movimentos culturais da minha terra. não sou membro da academia goiana de letras. não trabalho como assessor cultural da sec. meus pais não foram ligados ao cinema. não tenho tema preferido. não comecei a fazer teatro aos 12 anos. não me especializei em literatura hispano-americana. não tenho crônicas publicadas n’o republica de lisboa. não passei minha infância em pindamonhangaba. não canto a esperança. não recebi nenhuma premiação em concurso de prosa e poesia. não tenho sete livros inéditos. não sou considerado um dos maiores poetas brasileiros. nunca fui convidado para dar palestras em universidades. não vejo poesia em tudo. não faço parte do grupo noigrandes. não me interesso por literatura infantil. não sou casado com o poeta afonso ávila. na minha estréia não recebi o prêmio estadual de poesia. o crítico josé batista nunca disse nada a meu respeito. não sofri influência de bilac. não sou ativo, nem dinâmico. não me dedico com afinco à pecuária. não sou portador de vasto curriculum. não recebi mensão honrosa no concurso de poesia ferreira gullar. não exerço nenhuma atividade docente, nem decente. não iniciei minha carreira literária no exército. não fui a primeira mulher eleita para a academia acreana de letras. não tenho poesias traduzidas para o francês. não estou incluído numa antologia a ser publicada no méxico. minha poesia não é corajosa. não gosto de arqueologia. walmir ayalla nunca me considerou um revolucionário. nunca tentei compreender o homem na sua totalidade. não vim para o brasil com 5 anos de idade. não aprendi russo para ler maiakowski. meu pai não é chileno. não sou virgem, sou capricórnio. não sou mãe de seis filhos. nunca escrevi contos. não me responsabilizo pelos poemas que assino. não sou irônico. não considero drummond o maior poeta da língua portuguesa. não gosto de andar de bicicleta. não sou chato. não sei em que ano aconteceu a semana de 22. não imito ninguém. não gosto de rock. não sou primo dos irmãos campos. não sou nem quero ser crítico literário. nunca me elogiaram. nunca me acusaram de plágio. não te amo mais. minha poesia nunca veiculou nada. não sei o que vocês querem de mim. não espero publicar nenhum romance. não sou lírico. não tenho fogo. não escrevi isto que vocês estão lendo.

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3 Comentários

Arquivado em Brasília, Poesia

3 Respostas para “Brasilíada, Nicolas Behr

  1. Danielle

    Nossa…esse livro do autor Nicolas Behr é muito legal,realmente conseguimos viajar na história que ele conta,eu recomendo a todos os leitores que gostam de uma boa obra pois o autor escreve muito bem,eu conheci ele e seu trabalho quando participei de um evento na UnB ,o autor também é muito carismático .
    Brasilíada,realmente é uma boa obra.

  2. olá,
    gostaria de saber o nome do autor do artigo ai acima
    sobre a minha poesia. obrigado.
    abraços, nicolas behr

  3. Pra mim, ler Nicolas Behr é um aborrecimento. Suas poesias que mais gosto são as que ele imita Drummond e o insere em Brasília e mesmo assim, acho que a maior parte da genialidade da coisa vem mesmo é do Drummond. Se nós, brasilienses, costumamos gostar tanto de Behr é só por não termos quem mais gostar, numa cidade tão pacata de grandes nomes na poesia.

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