A casa de Brecht

Chaussestrasse, 125, Berlim. É onde repousa a casa dos últimos anos de vida de Bertolt Brecht. Fui visitá-la anteontem para sentir o pulso íntimo e intelectual de um dos mais influentes dramaturgos do século passado. Brecht viveu lá somente três anos, entre 1953 e 1956, com Helene Weigel, sua mulher, companheira e também atriz principal de todas as suas peças que estreavam. Brecht e Weigel formavam um casal de artistas bem conhecido, respeitado e admirado mundo afora. Em 53, eles voltavam para a Alemanha depois de um longo exílio. Voltavam, pois tiveram uma boa oportunidade de trabalho proposta pela Alemanha Oriental, na época controlada pela União Soviética. Regressavam, pois precisavam se expressar na sua língua e cultura natal. Nascia a contribuição de Brecht ao Berliner Ensemble, teatro que funciona ainda hoje e já foi dirigido por Heiner Muller.

Brecht era um socialista entusiasmado. Vi na sua estante de livros a obra completa de Marx – todo o “ Das Kapital”, a Ideologia Alemã na sua versão integral. Uma foto de Lênin. Outra de Engels. O jovem Marx posando. Numa casa de poucas fotos, essas três chamavam a atenção. Também vi várias máscaras japonesas penduradas na parede – uma máscara da face de Brecht quando jovem, com o nariz fino e alongado, um rosto comum. Poemas chineses em ideogramas marcavam as outras iconografias que preenchiam as paredes dos quartos. Na estante, vi a Bíblia – que era uma leitura constante de Brecht – Confúcio e muitos romances de detetives. Brecht era um dramaturgo inquieto, como uma forte verve “antropofágica” – mesclando culturas e símbolos diversos – um homem do teatro que dedicou a sua vida a arte da cena.

Sua casa era espaçosa e confortável, mas não chegava, nem de longe, a esbanjar luxo. Talvez fosse uma casa distinta demais para os padrões socialistas. Era um lar voltado ao trabalho. Um quarto pequeno para dormir. Uma biblioteca espaçosa, com diversas poltronas para leitura. Cinzeiros enormes, já que ele era um fumante de charutos inveterado. Pela janela: a vista para o cemitério onde estão os túmulos de Fichte e Hegel. Uma sala ampla e bem vazia, com três mesas, onde podia adornar seus escritos e sua criação – o espaço necessário para respeitar seu caos criativo e individual.

A reflexão teórica de Brecht é sem dúvida uma das maiores contribuições a organização da história do teatro; suas propostas estéticas  e o valor da suas peças ultrapassam o mero epíteto de escritor socialista. Peças como Mãe Coragem, A Ópera dos três vitens, Santa Joana dos Matadores e tantas outras possuem um vigor estético próprio, ultrapassam o naturalismo que ainda era vigente e revisa as concepções aristotélicas da arte dramática, e propôs novas relações entre o palco, o gesto e a platéia. Não é pouco. Tenho certeza que ler Brecht é – e será – tão importante como ler Shakespeare ou Moliére. Hoje, sua obra ainda carrega um ranço político que o tempo e a história, com a suavidade que lhes são peculiar, saberão como dissipar.

Deixo aqui um dos poemas do Brecht que estava no catálogo do museu. Prefiro o Brecht dramaturgo ao poeta. Mas esses versos mostram uma verve muito pouco dogmática para um artistas que foi mais dramaturgo que socialista.

The Doubter

Whenever we seemed

To have found the answer to a question

One of us united the string of the old roiled-up

Chinese scroll on the wall, so that it feel down and

Revealed to us the man on the bench who

Doubted so much.

I, he said to us

Am the doubter. I am doubtful whether

The work was well done that devoured your days.

Whether what you said would still have value for anyone or it

were less well said.

Whether you said it well but perhaps

Were not convinced of the trust of what you said.

Whether is not ambiguos: each possible misunderstanding

Is your responsibility. Or it can be unambigous

And take the contradictions out of things: it is too unambigous?

If so, what you say was useless. Your things has no life in it.

Are you truly in the stream of happenning?Do you accept

All the develops? Are you developing?  Who are you? To whom

Do you speak? Who finds what you say useful? And, by the way: it is sobering? Can it be read in the morning?

It is also linked to what is already there? Are the sentences that were

Spoken before you made use of, or at least refuted? Is

everything verifiable?

By experience? By which one? But above all

Always above all else: how does one act

If one believes what you say? Above all: how does one act?

Reflectively, curiously, we studied the doubting

Blue man on the scroll, looked at each other and

Made a fresh start.

(Bertolt Brecht, 1937, translated by Lee Baxendall)

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1 comentário

Arquivado em Literatura, Teatro

Uma resposta para “A casa de Brecht

  1. Como vai… Estou querendo conhecer o Memorial Brecht-Weigel, fiquei sabendo que existe um grupo de estudos que funcionada na casa e que ela faz parte da Academia de Artes de Berlim, poderia confirmar essas onformações. Obrigado Marcio

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