A democracia é engraçada

“A democracia instala-se no país como uma borracha que se vai derretendo lentamente até preencher por completo a superfície de um compartimento. Mas a democracia é a instalação de uma cobardia mútua, e tal sistema não parte nunca de uma vontade forte, de uma intenção original; pelo contrário: é consequência de uma matéria que derreteu. Não é um sistema político de material primário. É o fogo que a faz: `a democracia. É o excesso de calor, calor já não suportável que impõe a trégua da calma. E será depois o frio prolongado a reatar de novo a matéria principal, a Força primeira. A democracia é um efeito de perda da Força de um conjunto de homens. É um ganho de fraqueza global.

Era Leo Vast que assim pensava naquele instante. A borracha dereteu-se, murmurava ele. Derreteram a matéria forte e agora temos os pés instalados em esponja. Não sabemos o que vai acontecer.

Mas a família Leo Vast resistiu confortavelmente `as mudanças. Era como se as mudanças políticas afectassem a base da sociedade, mas nunca chegassem aos andares mais altos. O dinheiro é democrático, se necessário, ditatorial. É a matéria felxível por excelência. Obedece `as leis que ele próprio impõe: eis o dinheiro.”

(Um homem: Klaus Klump, capítulo 32, de Gonçalo Tavares)

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