Tropa de Elite 2: as várias camadas do “sistema” (com spoilers)

Quando matam, torturam, trucidam e exterminam uma favela carioca estaríamos todos puxando o mesmo gatilho das armas do Bope, essa máquina de guerra tipicamente brasileira. Todos, sim, pois seríamos parte do “sistema”. Esta é apenas uma das teses de Tropa de Elite 2. Uma tese que pode ser lida como política, mas que também tem lá os seus perigos e suas nuances.

Tropa 2 incorpora muitas das críticas feitas a sua primeira versão. O filme foi chamado de fascista– e, não por acaso, o roteiro do novo Tropa traz um bom personagem que defende os direitos humanos e chama publicamente o Capitão Nascimento de assassino. A primeira versão era acusada de idolatrar o Bope. Nesta segunda edição o Bope e o tráfico dissolvem-se e cedem espaço `as milícias, aos políticos e `a mídia sensacionalista. Até o deslize da pirataria – grande marca e contribuição histórica do Tropa 1 – pareceu corrigido. Afinal, Tropa 2 tornou-se o principal blockbuster do cinema brasileiro contemporâneo. Parece irônico, mas o diretor e os produtores certamente aprenderam as artimanhas do “sistema”, ainda que seja apenas e somente o sistema de distribuição cinematográfica.

Penso que Tropa 2 representa um amadurecimento, e até uma inflexão, de uma trajetória que começa com Cidade de Deus. Os ecos e as continuidades são óbvios. Além de um mesmo tema (a favela, o tráfico e os policiais cariocas), de um mesmo estilo (mais do que hollywoodiano e com influência de videoclip, um estilo pop e com uma montagem dinâmica), temos o mesmo time na equipe (o mesmo roteirista, o mesmo montador, Seu Jorge no elenco e a mesma trupe de empresas na distribuição). Após Cidade de Deus, tivemos Carandiru, Ônibus 174, Contra Todos e, dentre outros, o próprio Tropa de Elite. Além, é claro, de tantas séries de TV que embalaram patrocinadores e espectadores.

O que vemos é a emergência e a consolidação de um estilo conhecido como “pós-clássico”. Seriam filmes que incorporam os alicerces da linguagem clássica – um protagonista com narração over, um roteiro com seqüências e antagonismos bem definidos, pequenas pitadas melodramáticas –  e os mesclam a alguns experimentos palatáveis do cinema moderno, como a montagem não-linear, e uma narrativa com vários plots e pontos de vista. Pouco a pouco, esta fórmula e este estilo tornam-se canônicos no tal “cinema de retomada”.

Embora esteja imerso neste “sistema narrativo”, Tropa de Elite 2 tem fôlego próprio. Ao tornar-se um funcionário público honesto e workaholic, o Coronel Nascimento transforma-se num personagem mais complexo. De maneira arguta, o roteiro soube flexionar a trama política para o microcosmo da família de Nascimento. Dessa forma, a corrupção das milícias e dos políticos não atinge apenas  os inocentes moradores da favela, mas também aqueles que tentam combater as perversidades do “sistema”. Nascimento acaba por encarnar um arquétipo de justiceiro oficial e informal que lava a alma da platéia. Ele insere moralidade no Bope, leva a lei ao pé da letra, mata os bandidos, denuncia todo e qualquer corrupto e  – principalmente – não compactua com “o sistema”. Nascimento funciona como um personagem catártico. Impõe ordem e progresso a dialética da malandragem. E justamente onde mora o seu fascínio repousam seus ardis de uma pulsão forasteira.

Chegamos ao “sistema”. Tropa de Elite 2 não precisou de muito esforço para tecer uma trama que vincula as eleições `as milícias pacificadoras da comunidade. A paz, no entanto, seria bem cara. O “sistema” criaria um círculo vicioso. Os policiais sem fardas, informais, seriam o suporte para legitimar a eleição daqueles responsáveis por redigir as leis da nossa sociedade. Das milícias passamos ao congresso nacional. E o Bope estaria no seio dessa engrenagem. Ao implementar a “limpeza” e higienização do tráfico nas favelas, o Bope abriria caminho para as milícias que teriam seus próprio sistema de arrecadação fiscal. Esse retrato é bem feito. Ainda que muito esquemático e enviesado por uma sociologia que enxerga a sociedade como um sistema orgânico.

Ironicamente, esse diagnóstico niilista acaba por despolitizar. O sistema não é apenas foda, como diz Nascimento. Ele é flexível, mutável e sempre dispensa e troca as peças do seu tabuleiro de xadrez. Pouco adianta lutar contra ele, pois ele te engolirá. Paradoxalmente, essa mesma consciência do sistema pode soar política e despertar comentários inteligentes nos jantares da nossa classe média.

Ou gerar um lucro estrondoso. Ao fugir da pirataria, e nutrir-se da sua espantosa publicidade espontânea, Tropa de Elite 2 parece muito confortável no sistema internacional de Pint and Advertissment e Blockbuster. Afinal, além  da lei, da ordem e da moralidade, o que mais prega o Coronel Nascimento?

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4 Comentários

Arquivado em Filmes atuais, Filmes brasileiros

4 Respostas para “Tropa de Elite 2: as várias camadas do “sistema” (com spoilers)

  1. Ciro

    Texto arguto e capaz de avançar para além de fins que justificam seus meios, sem desprestigiar o filme. Parabéns, Pablo.

  2. Muito boa crítica.

    Eu lembraria ainda que, antes de Cidade de Deus, Pixote a Lei do mais fraco abriu os olhos da comunidade internacional sobre a situação das favelas e criminalidade no Brasil.

    Tomara que Tropa 2 vá bem internacionalmente, inclusive tentando uma indicação ao Oscar de melhor estrangeiro ano que vem.

  3. Xyz

    A redenção do Padilha. No tropa 1, como em qualque quadrinho de herói atual, herói e vilão são a mesma coisa. No tropa 2 finalmente temos mortes de pessoas que não são só da favela, pra equilibrar um pouco o tropa 1. Padilha vai poder se virar melhor pra defender os 2 tropas depois desse último. Ele ficava procurando o significado de ‘fascista’ no dicionário pra dizer que não tinha ligação com o filme tropa 1. Que inocente. Fez o 2 pra parar de ser questionado sobre isto. Gosto muito dos 2 filmes, mas prefiro de longe o 1º que fode mais o Padilha. Ele poderia ter se explicado fácil no tropa 1(a polícia é fascista e pronto!), mas teve que fazer o 2 pra isso. No ônibus 174 ele fode a polícia. No tropa 1 ele fode mais ainda, só que a polícia gostou de se ver como héroi psicopata. No 2 ele pede perdão por ter feito isso. Junto com “Nosso lar”, tropa 2 ocupou mais da metade das 2500 salas de cinema existente no país. O sonho do cinema nacional virando realidade? Não era isso que todo mundo queria?

  4. gustavo de castro

    Pablo, recebi o seu texto pelo e-mail da Faculdade de Comunicação. gostaria de republicá-lo, se vc permitir na Revista Casa das Musas, http://www.casadasmusas.org.br

    Sou editor desta revista há dois anos. Meu nome é gustavo de castor, sou prof. de estética da fac (graduação e pós). Caso vc permita, por favor, me envie um e-mail para gustavocastroesilva@gmail.com

    O texto que pretendo editar é este do Tropa de Elite II.

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