Diego Doc Maradona

Parece estranho, ou no mínimo inusitado, mas o sérvio Emir Kusturica – sim, o diretor de Underground – é um fã de carterinha de Diego Maradona, “el pibe de oro” e famoso meia da seleção argentina. Confesso que de início fiquei com medo, quando cliquei play no youtube e me propus a ver Maradona, um medo incerto  sem saber  aonde o diretor queria chegar e o porquê de escolher Maradona como tema e personagem. No entanto, o craque Argentino é uma figura extremamente sedutora e bastam alguns minutos do documentário para sermos conquistados pelo seu carisma.

A trajetória narrativa escolhida por Kusturica é interessante. Ele parte do Maradona como ícone pop e midiático para, pouco a pouco, desvelar um indivíduo extremamente emotivo. De início, portanto, desconfiança. Maradona não quer receber Kusturica. Esnoba-o. Deixa-o horas e dias esperando em frente a sua casa para, em seguida, postergar uma entrevista. É como se Kusturica fosse apenas mais um papparazzo a persegui-lo. Como se fosse um estranho querendo forçar intimidades.

A estratégia narrativa funciona. Lentamente constrói-se uma amizade entre Kusturica e Maradona, que vai ganhando sentido, identificações, trocas e pequenas, breves e discretas emoções. Uma amizade traduzida no ato de bater junto uma embaixadinha. Como se o futebol fosse uma das artes universais.

Inteligente, o argumento de Kusturica preza por um Maradona como típico filho dos anos setenta. Herdeiro político da guerra das Malvinas e com um bravo espírito guerreiro, o retrato psicológico do jogador da Argentino vai rimando com os golaços que revemos. São gols disputados, um pouco desengonçados, geniais, atrevidos, intempestivos, revoltados e revoltantes, gols alimentados por uma raiva que parece impulsionar um Maradona raçudo rumo a rede. Maradona, o filme, mostra um personagem que mescla tango com punk-rock – o que é demais. Ao som de Sex Pistols gritando God Save the Queen vemos uma animação que satiriza a Inglaterra e todo os ícones do imperialismo colonial. Como magia catártica, o futebol subverte as derrotas políticas para humilhar adversários reais e simbólicos.

Por isso Kusturica também retrata um Maradona aristocrático, certo e teimoso em manter uma dignidade latino-americana. É este o ator que pousa ao lado de Fidel Castro, Evo Morales e Hugo Chavez. É o mesmo latino que mostra, orgulhoso, a tatuagem que carrega de Che Guevara. O mesmo iconoclasta que enfrenta a máfia italiana e mostra os dedos com um olhar altivo a todo um estádio cheio em Nápoles. Essa dignidade aristocrática, como bem saca Kusturica, é uma verve que Maradona traz da sua origem pobre e humilde.

Sim, rapidamente vemo-nos encantados por um personagem plural. Não bastasse seu sucesso, acompanhamos seu declínio trágico, frente ao vicio da cocaína. O episódio o humaniza, contrasta com seu afã pai de família e com a forte religiosidade da sua mulher. O catolicismo latino, nessas horas, mostra-se perseverante e um forte alicerce. Uma fé que une uma família, um astro pop, um país inteiro a rezar para reivindicar a volta saúdavel – ainda que conservadora – o retorno de um ícone do futebol mundial.

No final, Kusturica consegue retirar uma longa entrevista sincera de Maradona. São os trechos mais emotivos do documentário. O ator deixa a máscara um pouco de lado, para falar de si. Quando o documentário volta a flagrar algo que alguns teimam em chamar de verdade.

Ta lá: inteiro no youtube. Veja os gols e se emocione. Como um bom arco dramático, o personagem Maradona nos toca e sensibiliza. Mostra os altos e baixos, os orgulhosos e as fraquezas que costumam abalar qualquer bípede que, em círculos, perambula por aí.

No meio da entrevista, Kusturica pergunta a Maradona com qual personagem de cinema ele se identificava. Sem titubear, o jogador responde: Jake LaMota em O Touro Indomável (Raging Bull), interpretado por De Niro no clássico filme de Scorsese. Coube como uma luva.

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