cabeça a prêmio

Basta alguns gestos, e matadores de aluguel tornam-se personagens instigantes. O que escondem? O que revelam? Quem observam? O que sentem? Seus olhares inquietos e distantes colocam em xeque-mate um vago sentimento humanista. Afinal, quanto vale uma vida trocada por um amontoado de notas? Pouco. Ou mesmo nada. Entre as mãos dessa persona – no tempo de um gatilho, o sentido da existência do outro torna-se frágil e volátil.

Cabeça a prêmio tem dois matadores de aluguel como protagonistas. Brito (Eduardo Moscovis) e Albano (Cássio Gabus Mendes) são os carrascos profissionais do filme. Também ganham a vida como capangas de Mirão, um fazendeiro “escroto”, com milhares de cabeças de gado nas costas e envolvido em obscuras tramóias. Dirigido por Marco Ricca, o filme mostra um pouco da cosmologia do agrobusiness e outro tanto de um Brasil do Mato Grosso do Sul, fronteiriço. Uma de terra sem lei. Ótima para um faroeste.

A construção psicológica dos matadores chama a atenção. Eles parecem frios, impessoais, quando, na verdade, estão eivados por pulsões vãs. O affair de Brito com Marlene – uma prostituta e dona de bar – revela um homem carente e inseguro. Que quer ser acolhido, mesmo em meio a brutalidade da sua profissão. Mas Brito não verbaliza suas fraquezas. É mudo. Como a falta de palavras que o habita. Os matadores possuem a ética do silêncio. Quase nunca falam. Quietos e observadores, eles agem pouco. E são certeiros.

Paralelamente ao universo dos matadores, Cabeça a prêmio tece um enredo cheio de paixões. A jovem e bela Elaine é a filha de Mirão e transa com Denis, um piloto paraguaio que voa entre fazendas riquíssimas. Essa paixão é central para a narrativa, pois ela contorce as relações de poder de tal modo que torna-se a centelha para a explosão de violência que era iminente.

Originalmente, Cabeça a prêmio é um livro de Marçal Aquino. Vale destacar a obra desse escritor. De estilo seco e direto, Marçal parece atento as bizarras costuras do tecido social brasileiro. Ele é colaborador constante de Beto Brant, e dessa parceria saíram os filmes O Invasor e Ações entre amigos. Em breve a dupla também lançará Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios – que se passa no interior do Pará e é baseado em livro homônimo de Marçal.

Cabeça a prêmio possui diversas semelhanças com O Invasor, obra mais célebre da dupla. Em ambos filmes temos um personagem fora da trama de poder que, num arroubo ousado e inexplicável, acaba por desafia-la. Em O Invasor é o matador Anísio (Paulo Miklos) que se recusa a apenas fazer o serviço. Quer ser como um dos engenheiros que contratou. Ter a mesma vida. Compartilhar dos mesmos luxos. Em Cabeça é o piloto paraguaio quem acaba por quebrar o código do serviçal subserviente. Quer libertar-se. Curtir. Amar. Curiosa e ironicamente, ambos os personagens transam com as filhas da elite que flertam.

Outro ponto comum entre os dois filmes está na construção das personagens femininas, que mostram-se meio adolescentes e bem burguesas. Nos dois filmes elas são hedonistas, alienadas, aventureiras e inconseqüentes.  Não por acaso, na última cena de O invasor vemos a personagem Marina dormindo, enquanto a corrupção rodeia sua casa. Mais ativa, Elaine mostra-se impulsiva e, num final aberto, revela-se mais agressiva. No entanto, as duas parecem não perceber a condição de classe em que estão imersas. Em alguns momentos, o que soa ingenuidade reverbera como uma violência simbólica para os seus pares.

O que vemos é uma narrativa cíclica. Um círculo vicioso. De forma distópica e pessimista, Cabeça a prêmio retrata homens corruptos, corrimpidos, perdidos e infelizes . É uma realidade sórdida para a qual não há bulas, remédios ou genéricos. Os matadores sequer representam a maior violência do filme. Eles apenas coligam uma realidade fragmentada na qual não há ética nem moral.

Ao fim, a trama não deixa brechas para respiro. Ela sufoca.

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1 comentário

Arquivado em Filmes atuais, Filmes brasileiros

Uma resposta para “cabeça a prêmio

  1. gabriela

    Bom filme, mas não explode como O invasor.

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