para rirmos do caos

As comédias mais recentes de Woody Allen possuem um espírito leve. Elas revelam bons gracejos cênicos para um cinema aparentemente despretensioso. Com diálogos certeiros e ágeis, personagens cômicos bem construídos e situações tão insólitas quanto cotidianas, Allen afirma-se exímio no ofício de despertar o riso. Com ele, vemos comédias que ultrapassam uma mera sucessão de piadas e gags.

Essa toada persiste em Whatever works (tacanhamente traduzido por Tudo pode dar certo) sua última obra exibida por aqui. Há sim a repetição das fórmulas, dos trejeitos e das artimanhas de roteiro do cultuado diretor nova-iorquino. O protagonista Boris é, como não poderia deixar de acontecer, o alter-ego de Woody Allen. Além de neurastênico, neurótico, hipocondríaco, e emocionalmente intenso o personagem possui um novo atributo: é prepotente. Em um passado remoto e longínquo, Boris foi (apenas) indicado ao Nobel de Física. Por isso, Boris se julga com um QI bem acima da média dos demais “mortais”. Pessimista e narcisista ao extremo, ele costuma humilhar seus alunos de xadrez e ridiculariza todos que estão aquém da sua nobre mente. O personagem encarna bem o arquétipo do velho ranzinza. Cria-se, num lance de roteiro, um tipo carismático e antipático.

Num acaso nada casual, Boris encontra Melody. Ela é uma típica norte-americana do interior, religiosa e moralista, que foge da família para tentar a vida em Nova York.  Melody exerce um contraponto narrativo certeiro a Boris, pois é o seu oposto: crédula, ingênua e romântica. Bem menos que casualmente, eles se casam e vivem promessas de um amor leve, sereno, embora temperado pelo mal-humor do velo ranzinza. Há, claramente, o choque de idades e gerações e talvez por isso a figura de Boris torna-se repetitiva, óbvia e massacrante para a pequena Melody. Aos poucos, não sobra espaço para a jovem. Ela dispara a repetir as teorias niilistas e esdrúxulas de Boris.

As últimas comédias de costumes e erros de Woody Allen tinham o acaso como um ente que une e dispersa as trajetórias dos personagens. Lembre de Match Point.  Lá, o acaso brilha como um força e desperta o riso por meio de um jogo, uma análise combinatória que une casais díspares, cria menages ou situações impensáveis e suscita constrangimentos constantes. Essa mesma estrutura está presente em Whatever works.

Nesse filme, no entanto, temos Boris como um físico e teórico do acaso transformando tal ente mais em tema do que em forma narrativa – o que resvala num roteiro muito fechado em si. Um acaso planejado. Um caos bonitinho. Embora haja sim situações surpreendentes e hilárias elas `as vezes soam muito forçadas. E, nesse casos, vemos uma boa estrutura de comédia confundir-se com gracejos, maneirismos e piadas repetidas. São alguns escapes que diminuem a obra.

Toda comédia possui uma alta voltagem política. Das sátiras, passando pelos bufões, palhaços, bobos e suas diversas máscaras contemporâneas, o ridículo emerge como força de transgressão moral e estética. Quando eivadas de maneirismo e piadas vãs, creio que as comédias perdem este afã político. Das comédias que vi neste 2010  destaco Um homem sério, dos irmãos Coen, e Soul Kitchen, do turco-alemão Faith Akin. Ambas partem do caos e da confusão para abolir a pseudo-coerência dos seus personagens. No filme dos Coen vemos um professor de matemática e judeu que, assustado, observa o esmorecimento de toda a sua estrutura profissional, familiar e religiosa. Ele fica apático, atônito. Quando o caos dribla a razão nos resta um bom riso carnavalesco. Com se estivéssemos nos apoderando de uma superioridade nervosa.

Em Soul Kitchen vemos a ascensão e queda de um restaurante de periferia de Hamburg, na Alemanha. O encontro entre tribos diferentes ocorre por mero acaso. A globalização parece ser o ponto de partida deste caos de culturas distintas. Há um universo narrativo bem retratado por um submundo de imigrantes, de jogos por sobrevivência e uma indiferença pelo outro que de tão absurda soa engraçada e ridícula. Tudo tão surreal, tão desencontrado, numa cozinha que mistura tantos temperos – tudo tão aleatório que o riso também revela-se um escape. `As vezes saudável, `as vezes simplesmente necessário.

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