“A palavra da menina é dor”

O primeiro filme dirigido pelo ator Matheus Nachtergaele é arrebatador.  A festa da menina morta possui uma pegada e um estilo que eu não supunha nem imaginava. Uma grata surpresa. Daquelas que te deixa um pouco inerte após a última cena ainda a degustar as sensações destiladas pela película.

Esse alumbramento se dá pela qualidade da imersão. Os longos e sutis plano-sequencia nos deixam numa posição de observador da cena (e menos voyeur, como de praxe). Não temos tantos símbolos. Não temos tanta ênfase dramática. Até meio distante, a câmera apenas está lá – a observar. A imersão distende-se pela bela locação escolhida: adentramos numa cidade ribeirinha, no Amazonas, com o rio caudaloso percorrendo-a, presente no fundo de vários quadros, cotidiano, entre situações corriqueiras, sem sobressalto algum. Ao final, mais do que belo, aquele rio parece engolir a narrativa, o protagonista e o espectador. Um misto de doc-fic que remete ao clássico Iracema uma transa-amazônica.

O filme narra a estória de uma cidade que está a preparar uma festa. Ela pára – assim como outras milhares cidades dos rincões brasileños – para celebrar um dos seus mitos de origem. Na ponta da festa está Santinho, um líder mísitico-religioso. A força do personagem brota das suas oscilações. Ele é autoritário e enfático. Ao mesmo tempo, revela-se frágil e desalentado. Tudo nele parece iluminação. Tudo nele soa profano demais.

No entanto, Santinho não é o protagonista, mas o elo místico que une todos. A cidade-rio, o meio, sim, parece ser este o ente que pulsa com maior força no filme. Essas cidades-protagonistas, aliás, são uma das características dos roteiros de Hilton Lacerda, que é co-autor de Menina Morta. Seus roteiros soam alinhados a um tradição naturalista da literatura brasileira: as pulsões conduzem as narrativas, o meio leva seus personagens a desesperos rimados, sobrepostos. É um pouco assim, imbuído de tal naturalismo, que enxergo Amarelo Manga, onde Recife é protagonista num bloomsday, num 16 de junho qualquer. Baixio das bestas também tem outro vilarejo pacato como força motriz, pois a cidadela do filme parece engolir a todos que por ela passa, como se fosse um imã para recônditas perversões. Essa estética naturalista remete a uma relação direta com a natureza, com os bichos: o porco que grita ao longo de uma seqüência; a galinha decepada, `a cabidela, em primeiro plano; pai e filho trepando numa noite densa, chuvosa, pouco iluminada (esta, inclusive, é uma das melhores seqüências do filme).

A regia de Nachtergaele pulsa com força. Não apenas pela minuciosa direção de atores, pela paleta de cores que privilegia um verde esmaecido, como se tudo estivesse úmido demais. Há, também, uma mis-en-scene que deixa a câmera num ponto ótimo: entre os personagens, a casa, a cidade e o rio. Não são poucos os travellings out, distanciando-se da cena, revelando o local, os detalhes mais físicos que humanos. Como se houvesse uma perfeita (des)harmonia.

O isolamento. Talvez seja esse um dos motes do filme. Essa pequena vila de A menina morta parece absorta em si mesma. Tal isolamento, quem sabe, também seja uma das características dos melhores filmes brasileiros contemporâneos, como Os famosos e os duendes da morte, de Esmir Filho, e O céu do Suely, de Karim Anoiuz. Um isolamento com mais verve dramática que política (e optando pela sutileza, ufa, esse isolamento distancia-se da tradição moderna do cinema brasileiro).  Deixo aqui para o leitor conferir dois links dos filmes citados.

No seu sermão Santinho diz: “a palavra da menina é dor”. Mas adverte: não é preciso  ter medo da dor. Não é preciso ter medo. E Santinho joga-se: num rio negro. Sem luz.

O DVD de A festa da menina morta foi lançado recentemente. Vale ser visto. Com calma. Com um olhar atento `as diversas sutilezas dessa narrativa.

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