o povo, a crítica e o doc brasileiro

Mito da burguesia. Alienado. Voz da democracia. Voz de Deus. Ingênuo. Aquele que sabe o que quer, mas também quer o que não sabe – o POVO, sim, possui tantos epítetos (e tão diversos entre si) que mais parece uma palavra desbotando-se numa página qualquer do dicionário da nossa língua. O POVO, no entanto, era uma noção e uma idéia muito forte entre os anos sessenta e setenta. Sobretudo no cinema e no documentário brasileiro dessa época. Essa inquietação encontra-se bem retratada na mostra Cineasta e Imagens do Povo que traz ao público filmes raros comentados por Jean-Claude Bernardet no seu livro homônimo de 1985.

E um Brasil difícil de ver revela-se sob esse mote que motivou  e ainda motiva inúmeros cineastas. Os analfabetos, os migrantes, a mídia, a tal opinião pública, os trabalhadores da indústria, os jogadores de futebol – são esses apenas alguns dos personagens dos docs exibidos. Vale conferir.

No livro, o olhar arguto de Bernardet problematiza o modo como esse povo é retratado. Há uma crítica a uma certa prepotência aos cineastas da época que no “modelo sociológico” retratavam seus personagens a partir de conceitos previamente estabelecidos. Nada mais redundante. Ao retratar o povo, faziam bons documentários sobre seus valores. Há também filmes mais formais que colocam em crise a própria idéia de documentário e de representação do outro, como Lavrador, de Paulo Rufino, e Congo, de Arthur Omar. Dois curtas experimentais, poéticos, com montagens vertiginosas atuais, instigantes.

A mostra revela a face moderna do documentário brasileiro. O seu nascedouro. O jeito que lidou com os ardis da representação da sua cultura, do seu “povo”. Junte esse apanhado de filmes com a “Caravana Farkas”, que foi lançada em DVD, e certas experiências do Globo Repórter e teremos os alicerces que influenciaram a geração contemporânea. O grande ponto de virada é justamente o clássico Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, que parece resumir e resolver boa parte dos questionamentos do Jean-Claude.

Vale dar uma olhada no catálogo da mostra: cineastaseimagensdopovo.com.br (finalmente um conjunto de texto com verba pública e disponibilizado na internet!). Por essa leitura podemos deslindar um pouco da trajetória da critica cinematográfica o Brasil. Muita coisa mudou. Para pior. Jean-Claude Bernardet é herdeiro direto de Paulo Emílio Salles Gomes. Ambos representam uma autonomia no estilo de critica situada entre a universidade, a mídia, a institucionalização, os cineastas e o público. Creio que essa autonomia se perdeu.

Hoje, a critica está segmentada, especializada, cercada por muros acadêmicos, diminuída pelos releases dos grandes lançamentos. Tampouco vejo uma influência da produção critica no posicionamento estético e político dos realizadores. Nem a internet surgiu como um alento verdadeiro. No Brasil – e em diversos outros países, a critica cinematográfica sempre funcionou como um trampolim para um grupo restrito e hegemônico de intelectuais ter acesso privilegiado a formas de financiamento. Essa característica parece perdurar em pleno século XXI.

Mesmo que fundamental essa mostra destoa bastante dos rumos do cinema contemporâneo. Curiosamente, o povo parece ter se transformado em assunto de filmes antigos. A verve política dos nossos dias substitui essa vaga idéia de povo por movimentos populares mais concretos, mais específicos. Hoje, o “outro” como uma idéia genérica parece ser o ponto de partida de vários documentaristas do nosso tempo. Afinal, estamos em tempos de voyeurismo `a la reality shows.

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