Um fake reality show

Não sei se a sinopse de O amor segundo B.  Shianberg soa muito atrativa para um leitor de jornal, sobretudo o desavisado. “A construção do amor na convivência de uma videoartista e um ator durante três semanas em São Paulo”. Lacônica, é o que diz. Nada mais. No entanto, o que o filme busca retratar – “a construção do amor” –não é pouca coisa. É por esse flerte, nesse acompanhar de um casal nos primeiros momentos da paixão, que o reality show se desfaz e o cinema se refaz convidando-nos a olhar com atenção ao homem e a mulher que se entregam com fervor frente `a frente `as nossas retinas.

Vi o filme em três beijos, como se cada um representasse um ato dramático. O primeiro é o do início do filme, um beijo voluptuoso, tais os primeiros instantes de um casal que “fica”. Beijo-descoberta, de observação, meio aventureiro. Após esse beijo, vem o cotidiano. Ela o filma. Ele performa para a câmera. Vem o tédio, vem o ócio. É o momento do segundo beijo. O ator mostra `a videoartista como se deve beijar para o teatro, a tv ou o cinema. Há, sim, um mote ético onde procura-se uma sinceridade performática. Ou seja; é o beijo perfeito para o momento real do reality show (ou o momento falso do fake reality show). O beijo de fora para dentro, quando o casal passeia entre as festas do grand monde.

Como num terceiro ato, vem a crise. A desconfiança, a distância e mesmo a ausência de beijos. E após uma longa discussão noite a dentro, um beijo em meio a uma transa de reconciliação. O amor construído, descontruído e reconstruído – eis  um ciclo dramático, e é isso que Beto Brant filma.

Como foi amplamente noticiado, O amor segundo B. Shianberg era originalmente concebido como um reality show exibido na Tv Cultura. Passou por uma outra montagem e ganhou essa versão que vi nos cinema, em sampa. O mais interessante dessa obra – e dos reality shows em geral – é a maneira como lidam com os roteiros. Há pequenas induções, jogos que levam a improvisos programados, personagens construídos na interação previsível, como variações de um mesmo tom, de uma mesma melodia.

Não é casual que se escolham nesse filme uma videoartista e um ator como seus performers e protagonistas. De um só lance, há o desmonte da imagem e da performance – dois dispositivos fundamentais para a potência dos reality shows. Ela mostra a imagem-câmera de uma forma evidente e ele, por sua vez, parece um professor de teatro passando as lições de Stanislavsky ou Grotowski.

Beto Brant filmou uma obra única. Situada entre fronteiras – certamente o melhor locus, hoje, para a busca estética. Desdenhou os documentários e as ficções tradicionais. Buscou uma interação entre as artes visuais e as artes dramáticas. Fundiu formatos televisivos e cinematográficos Talvez por isso – por estar entre tantas fronteiras – sinopse alguma seja capaz de resumir essa singela obra-prima.

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