brevíssimo retrato de Errol Morris

É curioso tentar retratar alguém exímio na arte do retrato… .

Não tentarei, é claro, retratar a pessoa Errol Morris, mas o cineasta, o documentarista, o artista. Um retrato da sua obra mereceria uma atenção especial na sua primeira e mais óbvia habilidade: a entrevista.

Errol Morris aborda seus personagens investigando-os com tridimensionalidade. Não está muito preocupado em buscar contradições políticas diretas – como fazem a maior parte dos documentaristas “engajados” – mas, ao contrário, quer compreender o que motiva as convicções mais secretas dos indivíduos que entrevista. Morris escuta, mas não se anula. Instila sentidos sutis na forma como edita, monta, mostra e esconde. Morris junta contrapontos, detalhes, pontos de vista e os harmoniza mantendo um equilíbrio ético entre o respeito e certas revelações.

Lembremos de Mr. Death, documentário e retrato que Morris traça de Fred A. Leuchter, um famoso engenheiro responsável pelo “aperfeiçoamento” da cadeira elétrica e da injenção letal. Sua maestria desdobra-se na forma como o espectador é envolvido pelo personagem. Leuchter é simultaneamente encantador e grotesco. Num primeiro momento, acha-se até ingênuo o teor das declarações de Leuchter: ele fala com orgulho sobre como conseguiu elaborar uma máquina de matar eficaz e praticamente indolor `as vitimas. Acha-se inteligentíssimo, o supra-sumo técnico, matemático e da objetividade. Acrítico, crê, inclusive, que está beneficiando os condenados…. .Suas posições são tão ridículas e absurdas e reveladas para a câmera com tanta sinceridade que em alguns momentos não parecem sérias. Em Morris, a ironia alia-se `a compreensão de uma forma única.

Numa palavra, tanto Leuchter quanto Mcnamara são retratados como homens competentes por saberem construir máquinas de guerra, para usar aqui um expressão cara a Deleuze. Ao mesmo tempo não seriam nada mais do que norte-americanos comuns, funcionários competentes bem remunerados, que poderiam ser seu vizinho ou seu colega de elevador.

Em Standard Opreating Procedure, Erol Morris radicaliza esse retrato da normalidade ao focar no hábito da tortura e sua normalização durante uma situação de guerra. Seus personagens não são apenas os jovens soldados que estiveram em Ab Grahu e foram  ao mínimo cúmplices das brutais torturas ali praticadas. Morris retrata o sentido do retrato, da foto e da imagem num ambiente de guerra. Por isso tanto se aproxima da Susan Sontag de Regarding the pain of others. Para ambos, a foto de um indivíduo sendo torutrado evidencia não apenas a crueldade do fato que é fotografado mas a apatia, a covardia, a brutal curiosidade de quem tira foto – e de quem observa… .

Todas as fotos de Ab Grahub, que forma tiradas por soldados americanos durante a última guerra do Iraqui, são “desconstruídas” por Errol Morris. Ele entrevista quem as tirou, busca o contexto em que foram tiradas. O horror das fotos evidencia o horror das situações que estavam por trás: eram brincadeiras, jogos, humilhações, trivialidades que faziam parte do cotidiano daqueles indivíduos…. .

Standard Opreating Procedure retrata um horror obsceno e pornográfico. Um horror que imaginava-se enterrado após Auschwitz e emerge normalmente nas capas de jornais, nos e-mails e sites, na frente de nossos olhos tão blases quanto indiferentes. Um horror, digno, no cinema, apenas aos 120 dias em Sodoma de Pasolini. Um horror que passa incólume e é retro-alimentado pela nossa sociedade midiática que banaliza qualquer imagem…. .

O mais interessante na “estética” de Morris é como ele leva o espectador a imaginar o que aconteceu. Ele se utiliza de recursos clássicos, imagens belas e catárticas para se aproximar do espectador, leva-lo a preencher e imaginar as imagens do que aconteceu mas não foi filmado. Faz tudo isso afastando-se elegantemente do docudrama. Em Standard Opreating Procedure temos vários momentos como esse. Morris mostra imagens – enquanto a narração em off continua – que sugerem beleza, leveza e magia frente ao que realmente aconteceu.  Imaginamos como cúmplices algo indigesto e imoral. Uma vez mais, ele soaria contraditório?

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