Eu tinha quase quinze anos quando meus pais se separaram. Já não era um menino, mas a onda me deixou mais conturbado do que eu imaginava. Lembro, às vezes, de algumas cenas, de diálogos vazando as paredes, de momentos onde a sensação era turva, de perturbação ímpar, e a casa sempre revirada, de pernas para o ar. Vi de tudo – meus pais humanos, demasiadamente humanos. Mas entre os tantos esquisitos desentendimentos dos “adultos”, fui certamente resguardado de um: nunca precisei encarar um juiz, “de toga e de pistola”, e decidir com quem moraria.
Eu era apenas quatro anos mais velho que Termeh, a menina, filha única, que vê seus pais se separando no filme cujo título coloca tal instante como central (A Separação, de Ashgar Farhadi, que concorre ao Oscar de filme estrangeiro). É de suas retinas adolescentes que temos os melhores momentos desse intricado melodrama. Uma menina de óculos, estudiosa, que compartilha conosco um olhar melancólico sob seu desajeitado véu. Ora condena a mãe, ora questiona o pai. Entre devaneios imaginários e uma ansiedade para que tudo volte a uma estabilidade já impossível – Termeh cresce.
Seja minha, seja sua, leitor, ou mesmo de Termeh, toda história de separação é por demais banal. Ela, por si, não sustentaria um filme. É nesse vácuo que a narrativa de “A Separação” desperta em nós uma história paralela, como se fosse uma alusão aos gestos de quem separa, as incontroláveis conseqüências que esta ira (ou hybris) desperta. A história revela Razieh, uma empregada grávida que vai cuidar da casa dos pais que estão em vias de se separar. Ela acaba brigando com o seu patrão, Nazeh, o pai de Termeh, e ambas famílias envolvem-se numa contenda crescente.
O que vemos é um jogo de verdades e mentiras. Vaidades e paixões eivadas, de um lado, por uma forte fé religiosa e, de outro, por um pragmatismo atroz. Como se a briga entre as famílias mimetizasse a irracionalidade tão comum que singulariza casais em litígio. Defesas vãs, pistas falsas, a vontade de manter posições, um orgulho arredio, uma teimosia em ganhar por ganhar.
Em meio a essa batalha, é o olhar da menina mais nova – cujos pais também estão se separando, que duplica, narrativamente, o estranhamento da separação. Ela é Somayeh, a filha de Razieh, que apenas testemunha o desespero da mãe ao trabalhar como empregada, as brigas com seu pai, os desfechos humilhantes dos julgamentos (uma boa critica pode ser lida AQUI). Um olhar sem verbo, pois vê a separação mas não a expressa por palavras. Quando pode, traça esboços e apenas desenha o vagar das sensações que nela afloram.
Mas todas acabam jogando com essas sensações. Mais do que uma separação que lida com sentimentos (como o amor) e pessoas (como as crianças), o que testemunhamos são brigas de adultos entre jogos de adultos. Os olhos ingênuos de Termeh ou de Somayeh acabam por ver, face a face, a venda que veda os olhos da justiça.
É no mínimo curioso ser espectador de um filme sobre um divórcio no Irã. Hoje, em nossos países ocidentais, uma separação soa como normal, algo que permeia nosso cotidiano. Mas, talvez, seja preciso lembrar que há apenas alguns anos qualquer divórcio ainda era proibido no Brasil. Sem sombra de dúvida, portanto, não é a questão legal – ou de direito – que nos comove nesse filme. O que mantém a história interessante é justamente a sua universalidade. Sim, ela ocorre no Irã – um estado aonde o homossexualismo ainda leva `a pena de morte (como mostra essa reportagem) e que possui um ministério da cultura afoito em condenar a cultura ocidental, que, pasmem, ainda aposta na censura como um gesto de resguardo cultural (leia nessa entrevista). Mesmo com esses tantos contextos, o que salta aos olhos é o teor da história, que poderia acontecer em qualquer família, em qualquer país.
Num clima de guerra iminente – entre ocidente e oriente, entre Irã e Israel, e seus tantos seguidores, em alinhamentos inflamáveis- esse filme vem enfatizar um gesto mínimo, discreto, de sublimação artística que transpassa as fronteiras nacionais e os perigosos discursos sobre armas nucleares, petróleo, eleições. Whatever. Na pequena área do quarto, entre as paredes da casa que separam (e juntam) a vida dos filhos às loucuras dos pais a política tem outro nome – e passa à margem das polêmicas geopolíticas.